José T. Giorgis

quarta-feira, 8 de março de 2017 às 0:00

Antônio de Souza Netto no Uruguai

A literatura sobre a Revolução Farroupilha pouco refere à presença do general Antônio de Souza Netto no Uruguai, fato ora suprido pelo pesquisador oriental Gonzalo Vásquez Gabor em obra sobre a origem de Carlos Gardel, que seria sobrinho do militar brasileiro.
Celebrada a Paz de Ponche Verde em 1º de março de 1845, desgostoso com a rendição e as cláusulas do pacto, na companhia de centenas de ex-escravos e familiares, Netto fixa residência em "La Gloria", uma estância fortificada nas pontas do Rio Queguay e Piedra Sola, antes de Pedro Jacinto Pereira, também brasileiro, estancieiro e empresário que havia servido, como capitão, sob as ordens de Rivera, sócio dele em alguns empreendimentos rurais.
Integrado na loja maçônica Filantropía y Libertad, Netto relaciona-se com o poder da época, seja com Rivera, presidente constitucional e fundador do Partido Colorado, ou com Oribe, membro da loja Madre Asilo de la Virtud e criador do Partido Nacional.
Netto já era amigo de Rivera desde que, ainda capitão da Guarda Nacional entre 1825 e 1828, servia a nação na questão Cisplatina; e, posteriormente, quando se entrevista com o líder uruguaio nos campos de Contrato, costa do Jaguarão; ou até na luta farrapa.
Com Oribe, a estima teve sobressaltos, sendo seu adversário em 1842, quando apoiou Rivera e comandou fração castrense na invasão de Entre Rios, em obediência ao incentivo da maçonaria que propugnava uma federação constituída pelo Brasil, Corrientes, Entre Rios e o Estado Oriental; vencido em Arroio Grande, Netto assiste Oribe invadir o território uruguaio e sediar-se em Montevidéu.
Logo, pela relação fraternal, Netto volta a se entender com Oribe, tanto que abastece de carne o Exército do governo durante a Guerra Grande, ganhando aí expressivo acréscimo patrimonial.
Quando o general Servando Gómez, comandante de Paysandu, em 1842, requisita áreas e moradores da propriedade de Netto, ao tomar ciência e através de carta, Oribe determina a imediata retirada dessas milícias dos campos de Queguay. Passados dez anos, já dono de mais de dezoito léguas, Netto torna-se o caudilho que representa os quarenta mil rio-grandenses que ocupavam mais de 45 mil quilômetros quadrados do solo uruguaio.
Em 4 de dezembro de 1860, aos 57 anos de idade, Antônio de Souza Netto contrai casamento, em Paysandu, com Maria Candelária Escayola, trinta e seis anos mais jovem, irmã de Carlos Escayola, tido com pai de Gardel.
Depois do falecimento de Rivera e Oribe, Netto apenas almeja o progresso de seus negócios e um governo que não onere sua riqueza ou impedisse a livre circulação de seu gado, bastando os dez anos contra os imperiais brasileiros exatamente pela cobrança do imposto sobre o charque.
Todavia, em 1860, quando assume a presidência do Uruguai, o advogado Bernardo Prudêncio Berro reaviva-se o tormento de Netto, pois o mandatário "blanco", contrário aos interesses dos proprietários estrangeiros, aumenta de modo significativo a contribuição direta sobre o pastoreio e recria o imposto sobre o gado em pé, tomando corpo, daí em diante, um movimento para derrubar o governo, agora liderado por Venâncio Flores, colorado e maçom, residente na Argentina, que ali obtém o apoio do general Bartolomeu Mitre, dirigente platino e maçom, propondo uma mudança de gestão.
Em 1864 começa a invasão do Uruguai.
(continua)


Por: José Carlos Teixeira Giorgis

 
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