Dilce H. dos Santos

terça-feira, 7 de março de 2017 às 0:00

O hipócrita e o ateu

Num almoço em família saliento sobre a importância do comentário em que o papa Francisco afirma que "é melhor ser ateu que um católico hipócrita". Ouço, à queima roupa, do meu filho, Luiz, o seguinte: "Nada é pior que ser hipócrita. E ateu não é, necessariamente, uma característica pejorativa."
Fiquei mesmo a refletir sobre o quanto somos hipócritas. Não por escolha consciente ou maldade, mas por vaidade, pura falta de reflexão e pobre investimento em autoconhecimento. Não gostamos de mentiras, ao mesmo tempo em que, ouvir verdades nos ofende; sentimos o direito de guardar ressentimento.
Salientamos que somos abertos a críticas, mas, ao receber uma sincera, queremos falar, explicar, justificar no exato momento em que o ideal seria ouvir, absorver, doer para aprender e crescer.
Declaramos objetividade e maturidade para falar e resolver assuntos difíceis. Não gostamos de indiretas, entretanto usamos frases do tipo: Algumas pessoas, certas situações, um determinado problema... Tudo obscuro para atender a necessidade de falar e ao mesmo tempo não se comprometer. Como pode ser adulto isso? Como resolver e ser adulto sem dialética? Sem debate? Por que discutir seria ofender? Diante de tanto medo em admitir falhas e sombras, não é de se admirar que a hipocrisia passe a ser um manto protetor que permite a todos ser francos, bons, honestos, maduros em tempo integral. Só que não!
Sobre isso, Leandro Karnal, historiador com a capacidade de desconcertar sua plateia ao fazê-la identificar-se com o ridículo da condição humana, lembra que a mais célebre das perguntas de entrevista de emprego e dinâmicas de grupo - Cite um defeito seu -, faz com que a maioria esqueça a sinceridade, abandone a hipótese de que seu interlocutor raciocina e declare: 
- O perfeccionismo! Ser muito exigente! Entregar-me demais! Dedicar-me exageradamente ao trabalho!
Ora, diante dessas afirmações fica claro que ou alguém está mentindo para si mesmo ou se percebe muito, muito pouco.
Sim, Luiz, meu filho, o que é não crer em Deus comparado a tanta vaidade e falta de profundidade? Realmente o melhor a fazer é tentar combater a própria hipocrisia.


Por: Dilce Helena dos Santos - psicóloga

 
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