Marcelo Teixeira

sábado, 4 de março de 2017 às 0:00

Burrice pega

Quando eu era guri, cansei de ouvir os mais velhos dizerem que a qualidade de ensino daquela época era bem pior do que a da época deles. Aquilo, de certa forma, me chateava, pois fazia parecer que todo o esforço que eu fazia para ter um bom aproveitamento na escola era inútil. Todos aqueles conteúdos invencíveis e altamente complexos, ficavam parecendo pouco, quase nada. Como não tinha maturidade suficiente nem elementos concretos que me habilitassem a contestar aquela afirmação, sempre aceitei aquilo como verdade, até por respeito aos mais velhos - coisa que existia na minha época.
Dia desses, conversando com amigos e colegas de trabalho, me peguei repetindo estas críticas que tanto ouvi na minha meninice: "A qualidade do ensino de hoje nem se compara com a de ontem!".
Naquele momento minha memória acessou um velho e inesquecível arquivo musical contendo a belíssima interpretação de Elis Regina "...minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais..." (trecho de "Como nossos pais" de Belchior). Imediatamente me ocorreu a pergunta: Por que estou dizendo isso? Será verdade que a qualidade de ensino de hoje é inferior à do meu tempo, e a do meu tempo era inferior a do tempo anterior, e assim sucessivamente? Estaríamos, então, regredindo?
Entre tantas reflexões que fiz tentando entender porque repetimos, hoje, as mesmas críticas de ontem, resolvi destacar a tese de que a burrice é contagiosa. Os alunos mal formados de ontem (eu, por exemplo) estão formando alunos hoje. Estes alunos formados hoje estarão formando outros alunos amanhã e, neste encadeamento das coisas, se o formador foi mal formado, a tendência é de que o formado seja pior do que o seu formador e assim por diante, confirmando não só que burrice pega, como ainda cresce em progressão geométrica.
Apesar de ter um certo fundamento e justificar a preocupação com o efeito cascata de tudo o que se faz em educação, esta tese, obviamente, não é confirmada pela realidade, visto que, se assim fosse, nossos antepassados teriam sido gênios insubstituíveis e nossos descendentes estariam condenados à imbecilidade. Percebo que, no geral, há uma melhora na qualidade e na profundidade do conhecimento atual e percebo, também, que os críticos mais empedernidos, ao criticar genericamente a qualidade do ensino, costumam estar tomados por uma espécie de nostalgia sistemática e equivocada, e, porque não dizer, por uma indisfarçável dor de cotovelo. Os jovens de hoje não sabem tudo que sabemos ou sabíamos, mas sabem muito mais sobre outras coisas, mais importantes na atualidade. Sabemos mais, também, porque estamos aprendendo há mais tempo e porque já adentramos o mundo prático, muito mais eficaz e prazeroso no processo de aprendizagem do que o teórico.
Por tudo isso, temos que tomar muito cuidado com estas críticas genéricas pois, citando outro trecho da mesma música referida anteriormente, pode parecer que "... é você que ama o passado e que não vê, que o novo sempre vem...". De qualquer forma isso não invalida a tese de que, efetivamente, burrice pega e, assim, temos que tomar cuidado para que isso não vire uma epidemia.


Por: Marcelo Teixeira

 
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