Padre Airton Gusmão

sábado, 4 de março de 2017 às 0:00

Quaresma, convite à conversão

Conforme a tradição cristã, a Quaresma era o período em que os catecúmenos (aqueles que não eram batizados) iniciavam o seu caminho de aproximação ao Deus da vida a partir de uma gradativa iniciação à fé. Este tempo compreendia a necessária mudança interior daqueles que queriam ingressar na Igreja. Posteriormente, este tempo de conversão foi estendido a todo cristão e a Quaresma transformou-se em um tempo de conversão para todo batizado. A liturgia da palavra deste final de semana nos apresenta o conteúdo desta conversão que deve ser vivida não só na Quaresma, mas a cada momento das nossas vidas.
Ao ser humano sempre foi apresentado dois caminhos: um de vida plena, de amor, de dom de si e um de poder e sucesso. A tentação sofrida por Adão e Eva no jardim do Éden é significativa neste sentido: "A mulher viu que seria bom comer da árvore, pois era atraente para os olhos e desejável para se alcançar conhecimento". (Gn 3,6). Jesus, assumindo a nossa condição humana menos o pecado, também precisou enfrentar os desafios da tentação no deserto para penetrar no drama da existência humana: " Naquele tempo: o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo". (Mt 4,1). Nesta experiência vivida por Jesus está a tentação que de muitas formas hoje ainda nos ameaça, isto é, a tentação de colocar Deus de lado, reconhecer apenas como realidade credível as realidades políticas, materiais tendo a Deus como uma ilusão. Na sociedade em que vivemos, caracterizada pelo desejo de sensações, do espetáculo, centrada na imagem onde tudo tem que ser mostrado, parece que a experiência do Mistério, do Outro, da alteridade não tem mais lugar. Corremos um risco, neste mundo do consumismo, da ganância, de esvaziarmos a nossa interioridade, a nossa capacidade de amar, de ter relações fraternas e gratuitas. De fato, a essência da tentação, como nos ensina o Papa Bento XVI, não é nos conduzir diretamente ao mal, mas mostrar o que é melhor para nós. Quantas vezes em situações de difícil solução, angústia, provações somos tentados a seguir o caminho mais fácil? Quantos falsos caminhos a história já nos propôs? Diante da fome no mundo, da violência que parece não ter fim, do desemprego, da corrupção, quantos não são aqueles que insistem em colocar Deus a prova dizendo: "Se Deus existe mesmo, porque estas coisas acontecem"? Assim, acabam preferindo o caminho da discórdia, da negação de Deus e do outro.
Porém, como nos diz o Papa Francisco na sua mensagem para a Quaresma deste ano: "O Senhor - que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador - indica-nos o caminho a seguir", e o caminho que como seres humanos devemos percorrer neste mundo é o caminho da humildade, da cruz, da esperança, da abertura do coração ao Senhor que está conosco. Este é o apelo que a Quaresma não cessa de nos dirigir, mesmo diante de tantas misérias humanas que não entendemos: "Rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus". (Jl 2,13). Este é o conteúdo essencial da conversão quaresmal, voltar-se de todo coração ao Senhor. Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação e perseverantes na oração. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.


Por: Padre Airton Gusmão

 
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