Saúde

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017 às 0:00

Ostomia sem tabu

Com origem do grego "stoma", que exprime a ideia de boca, a ostomia é uma abertura cirúrgica que permite a comunicação entre um órgão interno e o meio exterior. Isso faz com que o usuário tenha que usar uma "bolsinha coletora" para armazenar o rejeito do organismo, no caso fezes ou urina.

Ostomia sem tabu - Créditos: Reprodução
Ostomia sem tabuReprodução
Ostomias - Créditos: ReproduçãoJá adaptada à ostomia, agora pensa em voltar a trabalhar - Créditos: Arquivo pessoalGráfico feito por Rafaela Vitória, da 7ª Coordenadoria Regional de Saúde - Créditos: Arquivo pessoalApoio das irmãs foi fundamental para reestabelecimento de Andreia - Créditos: Arquivo pessoal

Ostomia sem tabu

Com origem do grego "stoma", que exprime a ideia de boca, a ostomia é uma abertura cirúrgica que permite a comunicação entre um órgão interno e o meio exterior. Isso faz com que o usuário tenha que usar uma "bolsinha coletora" para armazenar o rejeito do organismo, no caso fezes ou urina.
Com pouca visibilidade, a ostomia é tratada quase como tabu. Isso faz com que as pessoas tenham pouco conhecimento sobre o assunto. Os próprios pacientes que utilizam o método, muitas vezes demoram para aceitar a nova condição e temem a reação dos outros quanto à situação. Para Andreia Garcia, após passar por todas as fases de aceitação, a ostomia não é motivo de vergonha, e sim de celebração por ter vencido um câncer. Conheça a história dela e um pouco mais sobre o método.

Ostomia sem tabu

Logo quando começou a se recuperar da perda da mãe, que há seis meses faleceu em decorrência de um câncer no reto, a advogada Andreia e Silva Garcia, 36 anos, recebeu uma notícia que novamente lhe tirou o chão. Os sintomas que vinha ignorando há algum tempo culminaram com a descoberta da mesma doença da mãe.
Alto-astral, passou a enfrentar a doença com coragem. Após cirurgias e tratamento quimioterápico, agora está em uma nova fase. Uma das consequências do tratamento foi a ostomia, intervenção cirúrgica que permite criar um novo caminho para a saída das fezes ou da urina para o exterior do corpo.
Ela conta que tudo começou após perder a mãe, por complicações durante a cirurgia de um câncer retal. Trabalhando durante o dia, estudando à noite e escrevendo o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), ignorou alguns sinais que o corpo mandava de que precisava de cuidados. A primeira coisa que notou foram os períodos intercalando prisão de ventre e diarreia. Resolveu consultar um profissional da saúde e após sete consultas, já desconfiada de que poderia ter mais do que uma simples desregulação intestinal, veio a confirmação: tanto a constipação quanto os episódios de diarreia eram sintomas da mesma doença que acometeu a mãe.

A ostomia
O processo de adaptação ao novo modo de vida pode ser complicado, especialmente para as mulheres, já que a intervenção cirúrgica, muitas vezes, afeta diretamente a vaidade feminina. Para Andreia, o processo de aceitação não foi longo. Ela conta que descobriu a doença em fevereiro de 2016. Poucas semanas depois, em março do mesmo ano, foi informada de que a ostomia era o procedimento mais aconselhável em seu caso.
Relembra que quando soube de que a ostomia seria necessária, concordou, mesmo sem saber direito do que se tratava. "O doutor Ricardo Salim veio falar sobre a ostomia e eu concordei na hora. Ainda falei para ele que ia dizer mesmo sem internet para pesquisar mais sobre o procedimento. Hoje, acho que foi até melhor assim, porque se pesquisasse, talvez não tivesse coragem de fazer", conta ela, com bom humor.
A cirurgia foi feita e uma pequena parte do intestino grosso ficou exposta, como ostoma. Foi através dele que Andreia passou a expelir as fezes, que são descartadas na bolsa. Ela conta que logo após a cirurgia, tinha medo de tocar na barriga. "Eu não sabia como estava, tinha medo de como a minha barriga tinha ficado", recorda.
Mas não demorou a se adaptar à ideia da bolsa. O que mais demorou foi adaptação ao funcionamento e limpeza da ostomia. Mas durante todo o processo, contou com o apoio das irmãs, que fizeram questão de aprender todos os cuidados. Andreia recorda que a primeira vez em que tentou fazer a troca de bolsa sozinha, contou com a ajuda a irmã. Mas o processo acabou não sendo tão simples.
A irmã, Mari, explica que a limpeza geralmente é a questão de maior dificuldade entre os ostomizados, principalmente porque não há orientações na rede de saúde sobre como proceder. "No hospital, quem fazia tudo era a enfermeira. Quando a Andreia saiu de lá, saiu sem saber de nada. O que ela aprendeu, foi porque procurou aprender, principalmente, na internet", afirma.
Além da adaptação à "bolsinha", como muitas vezes é conhecida, Andreia também teve de se preparar para enfrentar o preconceito. Mas afirma que até hoje, nunca foi hostilizada pela condição. "As pessoas próximas a mim sabem que sou ostomizada. E para quem eu conheço, faço questão de falar logo de cara. Claro que é uma coisa difícil de entender para algumas pessoas. Uso uma bolsa na minha barrida de onde sai o quê? Fezes! Às vezes, tu tens que lidar com todo teu processo e com o preconceito das pessoas também", comenta.
Sem restrições alimentares e finalizando o processo de quimioterapia preventiva, para evitar que o câncer volte, ela leva uma vida normal. Ainda não conseguiu retornar ao trabalho porque não sabe como será a adaptação. Mas afirma que pretende concorrer em concurso público em breve. "Vou utilizar as cotas para pessoas com deficiência. Ainda que não seja visível, eu tenho uma deficiência e vou utilizar o meu direito", afirma.
Solteira, Andreia acredita que, apesar da ostomia não ter nenhuma influência na questão sexual, pode ser agravante na hora de conhecer alguém. "Eu não tenho namorado e não namorei depois que passei a usar a bolsa. Acho que não vai ser um problema para encontrar alguém. A ostomia salvou a minha vida. A pessoa que estiver comigo vai entender que é uma prova de tudo que passei. Mas sei que ainda existe muito preconceito e dificuldade para entender", diz.

Luta em família
A irmã ressalta a importância do apoio familiar no processo de recuperação. "Eu mesma pedi demissão do meu emprego na época para cuidar dela. Fiquei quase uma desempregada. Mas faria novamente se necessário. Temos que fazer em vida para nossos familiares", desabafa Mari.
O apoio foi tamanho que Mari acabou se envolvendo a fundo na causa dos ostomizados. Em 2016, reuniu um grupo de pessoas ostomizadas, que buscam o reconhecimento dos direitos.  Entre as bandeiras de luta, está a criação de um centro de referência, para auxiliar pacientes e seus familiares, capacitando técnicos ou enfermeiros para orientarem esses pacientes.
"Quando a pessoa sai do hospital, logo após ter feito a cirurgia, fica sem saber o que e como fazer em relação ao uso da bolsa, tal como, colocação e higienização. Somente o próprio ostomizado e familiares, sabem das dificuldades que se tem logo no início. E há o fator psicológico em se aceitar nessa nova condição, que em muitos casos é permanente", defende.
Além disso, o grupo deve buscar também o passe-livre no transporte coletivo, já que de acordo com a lei 5.296/2004, é considerado pessoa com deficiência. Entre as outras lutas do grupo, está a criação do Setembro Verde, que incentiva a realização de exame de colonoscopia, com prioridade para pacientes com histórico familiar de câncer no intestino. Atualmente, segundo Mari, em Bagé se espera mais de seis meses numa lista para ser chamado para fazer o exame.

Uma vitória
Protocolado neste mês, o projeto de lei 048/2017, de autoria do vereador Bocão, prevê a criação do Conselho Técnico de Atenção à Pessoa Portadora de Ostomia na Secretaria Municipal de Saúde.
No texto, é destacado que o atendimento será realizado em unidade de saúde, que deverá contar com equipe básica formada por assistente social, médico, enfermeiro e auxiliar de enfermagem. No local, o paciente será cadastrado e orientado quanto a alimentação e aos cuidados necessários e a importância da higiene na utilização das bolsas.
O projeto deve ser analisado a partir do dia 7 de março, quando as comissões da Câmara voltam ao trabalho após período de recesso parlamentar.
A Universidade da Região da Campanha (Urcamp) manteve, por muitos anos, um projeto de apoio à ostomizados junto ao Serviço de Reabilitação Física, coordenado pela professora Ana Paula Simões. Mas há cerca de cinco anos, o grupo encerrou as atividades.

Realidade em Bagé
Conforme dados fornecidos pela 7ª Coordenadoria de Saúde, até dezembro de 2016, havia o cadastro de 100 ostomizados na rede. Eles utilizam o material fornecido pelo governo do Estado, (bolsas coletoras de fezes e urina, absorventes, produtos de higienização das bolsas). No ano de 2016, foram realizadas quase 60 cirurgias no intestino, sendo a maioria de tumores malignos.

 

O que é ostomia?
A ostomia é uma intervenção cirúrgica que permite criar uma comunicação entre o órgão interno e o exterior, como a finalidade de eliminar os dejetos do organismo. A nova abertura que se cria com o exterior, chama-se ostoma. A ostomia que afeta o aparelho digestivo chama-se ostomia digestiva e o conteúdo eliminado para o exterior são as fezes, já a ostomia urinária é aquela que afeta o aparelho urinário e o conteúdo eliminado para o exterior é a urina. A razão para se criar uma ostoma ocorre por perfurações acidentais no abdômen, câncer no reto, no intestino grosso e na bexiga.

Tipos de Ostomia
COLOSTOMIA: é um tipo de ostomia intestinal que faz a comunicação do cólon com o exterior, também através do ostoma, no qual é acoplada a bolsa coletora no abdômen para a coleta das fezes.
LEOSTOMIA: é um tipo de ostomia intestinal que faz a combinação do íleo, a parte final e mais larga do intestino delgado, com o exterior. As leostomias localizam-se sempre no lado inferior direito do abdômen. Através do ostoma é colocada a bolsa coletora para eliminar as fezes mais líquidas.
UROSTOMIA (também denominada como "Desvio Urinário"): é a intervenção cirúrgica que consiste em desviar o curso normal da urina. As semelhanças das ostomias podem ser permanentes ou temporárias.

 


Por: Jornal Minuano

 
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