Marcelo Teixeira

sábado, 25 de fevereiro de 2017 às 0:00

Antes que acabe

Em meados dos anos 70 os compositores Aloísio Silva e Edson Conceição compuseram o clássico samba "Não deixe o samba morrer", celebrizado na voz marcante e indefectível da "Marrom", Alcione. Qual teria sido a inspiração dos compositores? Por que alguém, naquela época, poderia estar preocupado com a morte de um gênero musical? Passados pouco mais de quarenta anos, não há nada que indique que o samba esteja ameaçado de extinção, já o Carnaval...
Samba e Carnaval são como unha e carne, uma ligação umbilical que caracteriza nossa cultura tupiniquim. Contudo, o Carnaval não é propriamente "nosso". É uma data universal, milenar, com celebração vinculada à data da Páscoa, antecedente à quaresma. Já o samba é uma manifestação cultural genuinamente nossa, trazida pelos escravos, desenvolvida e aprimorada aqui em terra brasilis, fruto da miscigenação, também, de ritmos musicais europeus e africanos.
Mesmo no Brasil, nem toda festa de Carnaval é embalada pelo samba e isso se percebe de forma mais marcante no norte e no nordeste. Todavia a tradição maior, tanto do ponto de vista histórico quanto geográfico, vincula o Carnaval ao samba, principalmente por influência da cidade do Rio de Janeiro com seu Carnaval apoteótico e espetacular, feito pelas maiores escolas de samba do país. Inevitavelmente isso influenciou o País como um todo e amalgamou o samba com o Carnaval.
Porém, não é de hoje que o Carnaval vem perdendo força como festa e se transformando em apenas mais um feriadão nacional. Para piorar ainda mais, o carnaval é o único "feriadão" não legal, pois não há norma jurídica que o preveja como feriado. Por isso, não é de se duvidar que o lobby empresarial comece a forçar a barra para acabar até com isso. É só o que falta, pois neste ano em particular, em função da crise econômica, inúmeras prefeituras Brasil afora cortaram as verbas públicas para bancar a festa popular e o Carnaval de rua não vai se realizar, levando a reboque o Carnaval de salão que sofre junto e mais ou menos dos mesmos males.
Concluo, então, suspeitando que os sambistas que compuseram "Não deixe o samba morrer", sem querer anteviram esta decadência do Carnaval. Na letra da música fica clara a vinculação entre samba e Carnaval, mas o que eles talvez não pudessem imaginar é que hoje muitos não poderão mais pisar na avenida, não porque as pernas não aguentam mais, mas sim porque a avenida está vazia em pleno Carnaval e os paralelepípedos da velha cidade não vão mais se arrepiar com a passagem da ala dos barões famintos nem do bloco dos napoleões retintos.
O samba ainda passa bem em pleno século XXI, mas o seu palco principal agoniza. Assim, antes de me despedir, deixo ao sambista mais novo, o meu pedido final: Não deixe o Carnaval morrer!


Por: Marcelo Teixeira

 
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