José T. Giorgis

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017 às 0:00

A tijoleta virada

Era ameno entardecer. Daqueles em que o sol, lentamente, anoitece nos braços da lua, imagem, aliás, com que um amigo principiava a contar fato peculiar de sua vida sentimental, em que, ao procurar sua amada no mato da estância teve o dissabor de surpreendê-la em posição genésica com o dono da casa.
Pois, retomando, dizia que era um crepúsculo digno de Van Gogh e o seleto grupo que frequenta a "Bodeguita" disputava os sucos naturais ali fartamente servidos quando ouço o Dieguito repetir, enfático: "- Meninos, eu vi". Atentei ao assunto: era sobre a tijoleta invertida que há no piso da igreja Auxiliadora. É verdade, o tema seduz tanto os pesquisadores como o fantasma da panela do Candal; as vozes do rio Negro; o monstro que dormita embaixo da catedral; o tesouro dos jesuítas nos cerros; o destino do dinheiro aplicado nas "pirâmides moratórias"; a água milagrosa do passo do Príncipe; o livro que contém a ata de fundação do Guarany; os silos no campo dos Lacerda; e outros.
Como é absurdo imaginar que um marmorista habilidoso se distraísse ao colocar um azulejo em posição errada impõe-se a conclusão de que a obra, então, foi voluntária. E agora se sabe: tem uma mensagem cifrada.
Sabedor que numa gincana beneficente a dúvida também emudecera, socorri-me do Dr. Pureza de Carvalho, atualmente nos Açores onde acompanha o tratamento com águas sulfurosas de sua prendada senhora, tendo o oráculo das Palmas, via email, remetido sua opinião.
Plagiando o Ernesto Wayne quando relata imaginário namoro entre Santa Tecla e São Sebastião (perdoe-me, dom Gílio), a versão é que tudo "está ligado a um caso de amor, mas a história certa ainda está por ser contada". O que comprova, ainda, que "en toda humana querella, perguntá quién és ella".
Poucos sabem, mas o templo mariano foi inaugurado incompleto em 24 de maio de 1929, sem revestimento externo, com tijolos à vista, e uma cinta que abraçava as colunas da nave central, tudo sob o comando do irmão salesiano Heitor Schneider, designado para auxiliar ao arquiteto e projetista Domingos Vespignani, contratado pelos padres. Heitor foi quem corrigiu distorções iniciais, aumentando a altura, com vão sem colunas e melhores alicerces, permanecendo até o acabamento final. Voltou, depois, para colocar o altar por ele desenhado. Muitas famílias gradas da sociedade ajudaram a erguer a matriz.
Quis o destino que um italiano, auxiliar de Heitor, apessoado e azulejista, viesse a conhecer na saída da missa das dez uma bela conterrânea, pertencente a uma das melhores estirpes locais. Aluna das freiras chamava atenção na saída do colégio quando descia a Sete com garboso porte, uniforme plissado e sapato Anabela. Detalhe: falava francês. A blandícia envolvente do peninsular superou os muros de língua e classe, e - pronto - se apaixonam perdidamente, um romance tórrido, mas sem arroubos finais, a época não os incentivava, além de a moçoila estar prometida a herdeiro de muitas léguas.
Encontravam-se às escondidas na Praça Santos Lugares ou nos paredões atrás do moinho girado por tépido riacho. Ela declamava Verlaine. Ele blasonava sobre lajes que montara em palácios de sua Verona. As mãos sempre ágeis, pouco operárias. Meses correndo. Quando ela se forma normalista acaba a desculpa para os fugidios encontros. O namoro com o moço rico manda que se festeje o noivado e a boda se designa com prazo suficiente para fazer o enxoval. Entre beijos e lágrimas, é necessário terminar.
Dolorosamente, como num bom folhetim.
Sabendo que o casamento seria na igreja Auxiliadora, num derradeiro encontro, ele combina que deixaria um recado no chão do santuário, trajeto que ela percorreria na cerimônia, para que soubesse que não seria esquecida; e ela, quando saudosa, revivesse a lembrança daquela aventura juvenil.
Por isso, quando se entra na igreja e se anda rumo ao altar estranha-se a tijoleta virada.


Por: José Carlos Teixeira Giorgis

 
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