Padre Airton Gusmão

sábado, 18 de fevereiro de 2017 às 0:00

Amar todos, inclusive os inimigos

O bispo de Saigon, François Van Thuan, que esteve preso por 13 anos, assim dialogava com o seu carcereiro que o perguntara: "O senhor nos quer bem? Quero sim. Mas nós o mantivemos preso por muitos anos, sem julgamento, sem condenação, e o senhor ainda nos quer bem? É impossível! Talvez não seja verdade! Estivemos juntos durante muitos anos e o senhor viu que é verdade, retruquei. Quando o senhor sair da prisão, não mandará os seus fiéis queimar as nossas casas e matar os nossos familiares? Não, embora os senhores queiram matar-me, eu lhes quero bem. Mas por quê? Porque Jesus me ensinou a amar a todos, também os inimigos. Se não o fizer, não sou mais digno de ser chamado de cristão. É muito bonito, mas difícil de entender" (Testemunhas da Esperança, editora Cidade Nova, 2014).
Vivemos hoje, no mundo e no Brasil, um clima de insegurança e medo, provocados por atitudes de maldades, injustiças, desejos de vingança e intolerância. Tudo isso muito bem pensado e divulgado pelos meios de comunicação social, principalmente a televisão e mídias digitais. No fundo, com interesses econômicos e políticos, vive-se o "olho por olho, dente por dente" ou a famosa tese do "homem lobo do homem", criando assim um clima de terrorismo psicológico, com o medo e pânico, como  instrumentos de alienação, dispersão e controle social.
A maldade não é própria do ser humano. É impossível nascermos maus, uma vez que Deus, o bem por excelência, nos criou à sua imagem. Porém, todo ser humano é potencialmente alguém que pode cometer atos ilícitos, ética e moralmente condenáveis. Ou seja, a maldade pode desenvolver raízes no coração humano. Podemos dar-lhe hospedagem, criar condições para que ela se alastre entre nós.
Jesus, dentro do contexto do Sermão da Montanha, desaprova a vingança, seja qual for seu grau de violência, substituindo-a pela lei do perdão. Pois, a novidade do Reino agora é: não se vingar, mas ceder e amar até os inimigos. Assim vivendo, diz ele: "vocês se tornarão filhos do Pai, pois ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos" (Mt 5,38-48).
Assim, neste caminho de perfeição e santidade, Ele nos apresenta o modelo: o Pai Celeste: "Sede perfeitos como o Pai celeste é perfeito". A imitação de Deus, na sua perfeição ou santidade, concretiza-se no amor manifestado também ao inimigo, como um amor gratuito e desinteressado que possibilita fazer a experiência de filhos. Um amor que leva a superar o espírito de hostilidade, a vingança, o ódio e o rancor, para construir a verdadeira fraternidade. Temos muitos exemplos de que é possível este amor aos inimigos. Eis alguns: Francisco de Assis, Luther King, Gandhi, Oscar Romero, Madre Teresa de Calcutá, Helder Câmara, Irmã Doroti, Van Thuan, entre milhares de testemunhas do Reino.
O amor gratuito nos descentraliza, pois nos move a buscar o bem do outro. E nos centraliza em Deus, pois visamos ao bem dos outros. Somente quando a pessoa se sentir amada, somente quando se sentir importante aos olhos do outro, ela abandonará a maldade. Somente aquele que ama gratuitamente, tal como Deus, poderá amar os seus inimigos. É o caminho e convite para todos nós.
Por isso, é importante a gente se perguntar: meu amor é seletivo ou ele é inclusivo como o amor do Pai? Temos inimigos a perdoar e rezar por eles? Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação e perseverantes na oração. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.


Por: Padre Airton Gusmão

 
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