Marcelo Teixeira

sábado, 18 de fevereiro de 2017 às 0:00

O insustentável meio-termo

Dizem os sábios que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose, ou seja, o exagero na dose do remédio o torna um veneno, e venenos devidamente manipulados transformam-se em remédios. Esta lógica de raciocínio vai muito além das bulas e das manipulações químicas. Trata-se de um princípio que norteia quase todas as ações humanas. Qualquer ação ou reação humana que peque pelo excesso ou pela falta tende a criar problemas.
O grande problema é não exagerar nem se conter demais por muito tempo, ou seja, o grande problema é identificar e sustentar o meio-termo, o ponto ideal, o equilíbrio. Como gordo assumido, que sempre come mais do que deve e menos do que deseja, sempre disse que é mais fácil parar de comer do que comer pouco. Lá pelas tantas o gordo se ataca, para de comer e emagrece vertiginosamente arrancando importantes e estimulantes elogios de seus convivas. Depois disso, alguns não conseguem parar de emagrecer e rumam inexoravelmente à subnutrição, mas a maioria começa a acreditar que já não corre mais o risco de engordar e recomeça a menos lenta e crescente escalada rumo à velha forma e, assim, em pouco tempo, volta a comer um boi pela perna. Então a vida de um gordo costuma se resumir a este dilema entre a anorexia e a obesidade mórbida, isto é, sem meio-termo.
O ato de criar e educar os filhos é outro aspecto da vida humana que costuma se caracterizar pela dificuldade em encontrar e sustentar o meio-termo. A tendência atual é de mimar e proteger demais os filhos e criar eternos inseguros, dependentes, irresponsáveis, arrogantes e perigosamente inocentes. Mas como saber qual a dose certa de proteção e carinho? Certamente não é nos livros do Içami Tiba, nem em programas de TV e nem em cursinhos que você conseguirá esta resposta. A tendência é criar e educar como fomos criados e educados com as devidas adaptações e correções de rumo, mas isso não garante que possamos atingir o meio-termo. A única coisa que esta tendência garante é a continuidade dos defeitos e virtudes predominantes na família.
No caso da educação dos filhos suspeito que a dosagem certa é algo instintivo que estamos perdendo pouco a pouco em função da excessiva racionalidade de nossas atitudes. Olha o excesso aí de novo, ou seja, não podemos ser racionais demais, mas também não podemos ser racionais "de menos", assim como não podemos comer demais nem "de menos", se exercitar demais nem "de menos".
Tudo na vida é assim, falta de amor é um problema, mas amar demais também; falta de iniciativa é problema, mas excesso de iniciativa também; sovinice é um problema, mas prodigalidade também; perfeccionismo pode ser uma virtude ou um defeito dependendo da dose. Qual é a medida certa então? Está aí uma equação que quem sabe a resposta não consegue ensinar e quem não sabe costuma morrer sem aprender.


Por: Marcelo Teixeira

 
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