Saúde

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017 às 0:00

Doação de órgãos. Doação de vida

Nas últimas semanas, o Brasil acompanhou o caso da ex-primeira dama, Marisa Letícia, que morreu aos 66 anos, depois de sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Após a confirmação da morte encefálica, o ex-presidente, Luís Inácio Lula da Silva, autorizou a doação de órgãos da companheira

Doação de órgãos. Doação de vida. - Créditos: Arquivo pessoal
Doação de órgãos. Doação de vida.Arquivo pessoal
Tári Costa: Rodrigo Braga Jorge - Dificuldades estruturais e técnicas de comprovar morte encefálica são algumas das dificuldades enfrentadas para a doação - Créditos: Arquivo pessoalDoação de órgãos. Doação de vida. - Créditos: Arquivo pessoal

Doação de órgãos. Doação de vida.

Nas últimas semanas, o Brasil acompanhou o caso da ex-primeira dama, Marisa Letícia, que morreu aos 66 anos, depois de sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Após a confirmação da morte encefálica, o ex-presidente, Luís Inácio Lula da Silva, autorizou a doação de órgãos da companheira. Na última terça-feira, foi confirmada a doação de fígado, rins e córneas. O caso reacende o debate sobre a importância da doação de órgãos. Para dar um panorama regional, o Jornal MINUANO foi atrás de informações sobre as estatísticas bajeenses.

Número de transplantes em Bagé ainda é considerado baixo
Em um momento de dor e luto, a decisão de doar órgãos de entes queridos falecidos, ainda que difícil, é um ato de amor pelas vidas que podem ser salvas. Mas a determinação para levar o ato à cabo ainda é pequena em Bagé. O número de doações de órgãos na Rainha da Fronteira é pequeno e vem caindo gradualmente na última década.
A Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante, da Santa Casa de Caridade de Bagé, foi criada em 2003. Até 2014, apenas oito procedimentos haviam sido realizados. De lá para cá, apenas mais dois foram feitos, um em 2015 e outro no ano subsequente.
Atualmente, a comissão é presidida pelo nefrologista Rodrigo Braga Jorge, junto à psicóloga Lisiane Sefrin, que atua desde a criação do grupo. Anteriormente, a comissão era coordenada pelo médico, Ricardo Necchi, que transmitiu o cargo para Jorge no final do ano passado.
Atuante em Bagé, há pouco mais de um ano e meio, atuava na Santa Casa de Caridade de Curitiba, no Paraná. Ele conta que na capital paranaense, o transplante de rins liderava a lista, com um número expressivo de doações. Na Rainha da Fronteira, contudo, encontrou um cenário muito diferente.
O nefrologista credita o baixo número de doações à pouca exploração do tema entre a população e também às dificuldades técnicas de se fazer o diagnóstico. Isto passa pelas questões estruturais que a maioria dos hospitais do país enfrenta. "Para fechar o protocolo de morte encefálica, é necessário exame clínico e de imagem, os mais específicos como eletroencefalograma e a angiografia cerebral não temos disponível. Aqui em Bagé, usamos tomografia com contraste. Ela serve bem para o propósito, mas não é o ideal. Estamos trabalhando para criar protocolos, rotinas e treinamento da equipe na tentativa de se fazer mais rapidamente os diagnósticos e consequentemente aumentar o número de doações na cidade", explica Jorge.

Como funciona o processo, da retirada dos órgãos ao transplante?
À princípio, qualquer pessoa que tenha tido a morte encefálica confirmada pode se tornar doadora. Esse é um quadro irreversível em que é diagnosticada a parada total das funções cerebrais. Mas mesmo com a falência do cérebro, o coração continua batendo e a irrigação sanguínea mantém os órgãos viáveis para doação. A circulação é mantida artificialmente, por meio de aparelhos e medicamentos, enquanto a Central de Transplantes é avisada.
Rodrigo explica que após seis horas do de morte encefálica, o potencial doador passa por um novo teste clínico para confirmar o diagnóstico. Ele ressalta que um mesmo doador, é possível retirar vários órgãos para o transplante. Desta forma, apenas um doador tem o potencial para salvar várias vidas.
Em seguida, a família é questionada sobre o desejo de doar os órgãos. Em caso positivo, os dados informatizados do doador são cruzados com os das pessoas que aguardam na fila pelo órgão para que o candidato ideal, conforme urgência e tempo de espera, seja encontrado em qualquer parte do País.
De acordo com informações do Ministério da Saúde, as cirurgias mais recorrentes são as de coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino, rins, córnea, vasos, pele, ossos e tendões. Os órgãos que duram menos tempo uma vez fora do corpo são retirados antes. O processo todo é uma corrida contra o tempo para garantir a preservação dos órgãos durante o transporte.
Quando a doação é entre pessoas de Estados diferentes, o Ministério da Saúde viabiliza o transporte aéreo dos tecidos e órgãos. A pasta tem um acordo voluntário de cooperação com companhias aéreas para assegurar o translado. As empresas transportam os órgãos gratuitamente em voos comerciais.

O pós-operatório
Depois de transplantado, o paciente tem um pós-operatório semelhante ao de outras cirurgias. Mas o sucesso da operação depende de vários fatores, como as condições do órgão e o estado de saúde do paciente. No entanto, ele terá de tomar remédios imunossupressores durante toda a vida para evitar uma possível rejeição do corpo ao novo órgão.
A estimativa do Ministério da Saúde é de que a sobrevida dos pacientes depois de cinco anos da cirurgia é de 60% nos casos de transplante de fígado e pulmão; 70% para cirurgias de substituição do coração; e 80% para os transplantes de rim.

A bióloga Tári Yasmin Costa Pacheco, 25 anos, há dois anos foi testemunha da importância da doação de órgãos. Após uma visita de rotina ao oftalmologista, ela descobriu que necessitava de uma transplante de córnea imediatamente. Confira o relato dela:
"Em junho de 2014, fui na Clínica de Olhos aqui em Bagé para consultar, porque eu achava que havia aumentado o grau e eu queria trocar os óculos. Durante a consulta, o médico disse que ia me encaminhar para Porto Alegre e que eu precisaria de um transplante (TX). Foi um choque porque eu recém estava me recuperando de um acidente. Aí do nada tu vai no médico só para trocar os óculos e do nada tu tem que fazer um transplante.
Bom, fui para Porto Alegre, para o Hospital Banco de Olhos. Passei por vários médicos e fiz vários exames. Foi diagnosticado que eu estava com uma doença ocular chamada Ceratocone, que vai deixando a córnea cônica e fazendo com que haja a distorção das imagens.
Entre exames, consultas e testes para outras alternativas, sem ter que fazer o transplante se foram 5 meses. Após diagnosticar que não tinha outra alternativa, fui colocada na fila de espera no dia 30 de novembro de 2014. No dia 26 de fevereiro de 2015, eu realizei o transplante. Não foram nem 3 meses de espera!
Fui para Porto Alegre um dia antes e no dia marcado cheguei por volta do 12h entrei para o transplante e saí por volta das 14h30min. O processo foi tranquilo, mas demorado. Eu levei 16 pontos no olho e só 8 foram retirados porque leva um tempo para que o tecido se recupere, então eles vão tirando aos poucos. A recuperação é lenta, não posso fazer esforços, baixar a cabeça, levantar peso e tudo que faça uma pressão no olho, já que pode rebentar os pontos e causar rejeição.
Eu tive que permanecer em Porto Alegre por uns 3 dias porque tinha que ir no hospital. Depois, as visitas passaram a ser semanais, aí foi aumentando o espaçamento, de 15 em15 dias. Neste mês completam dois anos que fiz o transplante e tem meses que eu vou duas vezes a Porto Alegre, uma para consulta e outra para exame. E tem meses que eu vou só uma.
A doação de órgãos já fazia parte da minha vida. Eu sempre dizia que seria doadora e agora, sendo uma receptora, me motiva muito mais e faz com que a vontade só aumente. É um desejo meu e espero que ele seja cumprido. E eu sou eternamente grata a essa pessoa que, infelizmente, teve que partir para que eu pudesse seguir enxergando. Sem dúvidas, é uma pessoa de luz. A mensagem que eu deixo é: se cada um pensasse um pouquinho no quanto as doações de órgãos podem mudar a vida de alguém, tenho certeza que todos iriam se tornar doadores".

 


Por: Jornal Minuano

 
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