Marcelo Teixeira

sábado, 4 de fevereiro de 2017 às 0:00

Demonização diabólica

Uma estratégia velha e cansada de guerra nas campanhas eleitorais, consiste em se empenhar mais em destruir o adversário do que em construir uma candidatura séria com uma plataforma de propostas criativas e viáveis.
Só a título de exemplo e saindo da aldeia, Trump foi eleito recentemente com uma proposta mais focada em destruir tudo aquilo que Obama fez do que em construir alternativas para resolver os problemas do país.
E o pior é que, depois de eleito e empossado, esta intenção de Trump de apagar os vestígios de Obama se confirmou. É claro que isso não ocorre sempre, nem em toda e qualquer eleição, mas o que mais me preocupa é o crescimento e a consumação deste tipo de política que acaba gerando discórdia, fomentando a radicalização, enfim, provocando a divisão pelo ódio, uma coisa literalmente diabólica e extremamente nociva para a coletividade como um todo.
Se por um lado aprendemos com Jesus, Gandhi, Mandela e até com o Profeta Gentileza que o amor é o mais importante, que a paz é fundamental e que gentileza gera gentileza, por outro, sabemos por experiência própria que violência gera violência e que desamor gera desamor.
E é aqui que está o equívoco desta postura crescente nos últimos anos, com ares até de fenômeno universal. De repente começamos a ver reinar este comportamento maniqueísta, que o gaúchos adoram: ximangos vs. maragatos, colorados vs. gremistas, coxinhas vs. mortadelas, feministas vs. machistas, brancos vs. negros, bolsominions vs. socialistas de iPhone... e assim por diante. O meio termo, a ponderação, a coerência e o bom senso simplesmente sumiram das posturas, dos discursos e até das atitudes. Quem não está a favor, está contra. Quem não é do bem, é do mal. E quem ficar em cima do muro será considerado como um opositor enrustido pelos radicais dos dois lados.
Em meu sentir, na raiz de tudo isso está aquilo a que me referi no início destas mal traçadas linhas: a preocupação maior em destruir o adversário do que em melhorar seu argumento. A demonização da tese contrária como pressuposto para a materialização da minha tese. É a tal da terapia do confronto ou, como diz o velho provérbio francês, "não se faz omelete sem quebrar os ovos".
Quando alguém se ocupa mais em atacar o outro, nem sempre consegue abrir espaço para a sua pretensão. Pelo contrário, pode acabar provocando uma reação mais hostil que sua ação. A sabedoria popular sempre alertou sobre isso dizendo que não se deve cutucar a onça com vara curta, nem mexer com quem estava quieto.
Na prática, o que ocorre hoje é que para defender seu entendimento, muitos demonizam o entendimento contrário. Para defender os negros, demonizam os brancos. Para defender as mulheres, demonizam os homens. Para defender os pobres, demonizam os ricos. E invariavelmente generalizando as condutas como se todos os brancos fossem racistas, todos os homens fossem machistas e todos os ricos explorassem e odiassem os pobres.
O mais engraçado disso tudo é que em muitos casos os militantes brigam contra uma generalização, mas fazem isso generalizando também. Respeitosamente, está tudo errado! Eu não preciso demonizar os que estão no lado de lá para proteger ou defender os que estão no lado de cá. Além de não ser uma estratégia inteligente, quase sempre é desonesta e injusta.
Partir para cima, para o confronto, para a ignorância até pode acelerar o processo, mas deixa uma herança perversa que tem um custo muito alto e que pode provocar efeito contrário. Em vez de terminar com aquilo que combate, acaba atiçando ainda mais ou ressuscitando antigas e odiosas posturas.


Por: Marcelo Teixeira

 
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