Marcelo Teixeira

sábado, 28 de janeiro de 2017 às 0:00

Novos tempos, novos valores

Era uma vez um sol que aquecia, mas não queimava. Neste tempo, as pessoas iam para a praia sem filtro solar. Usavam óleos de bronzear, bronzeadores Rayito de Sol, para potencializar ainda mais a ação do sol na intenção de escurecer a pele. Neste tempo já havia, também, a recomendação médica de não se expor aos raios solares entre às 10 e as 15 horas, mas quase ninguém observava. Pelo contrário, ficavam na praia exatamente durante este horário. E não faz tanto tempo!
Sou uma testemunha ocular e epidérmica deste tempo em que nem se falava em filtro solar, FPS (Fator de Proteção Solar), raios UV-A e UV-B, índice UV, camada de ozônio etc. Pelo que lembro, esta transformação começou a ocorrer nos anos 80 e a "côsa" foi ficando tão séria que, atualmente, se alguém arriscar tomar um banho de sol no referido horário crítico e sem filtro solar, poderá experimentar consequências terríveis e dolorosíssimas, correndo o risco até de morrer.
Ano após ano, o FPS só aumenta e mesmo assim a sensação é de que os filtros não dão conta de raios solares cada vez mais fortes. Neste verão, vi gente ir à praia com roupas de manga longa para se proteger dos raios solares. Roupas especialmente feitas para isso, de material sintético e aparentemente confortáveis, tanto do ponto de vista térmico, quanto anatômico.
Consultei rapidamente na internet e confirmei a oferta deste tipo de produto em alguns sites. Descobri, também, que a Austrália foi o primeiro país a regulamentar a produção deste tipo de roupa que, independente da cor, tem um fator de proteção (FPS) igual ou superior a 50. Fiquei a pensar que talvez, num futuro não muito distante, tenhamos todos que ir para a praia de manga longa e calças. Seria uma ironia do destino. No passado as pessoas não exibiam o corpo na praia por pudor, no futuro farão o mesmo, mas para evitar um tumor.


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- Quem cochicha o rabo espicha!
- Quem se importa o rabo entorta!
- Quem reclama o rabo inflama!
Era assim que a gente tentava controlar o mau hábito de alguém cochichar na frente dos outros e retrucava a reação de quem reclamava de estar sendo patrulhado por quem se importava em reprimir os cochichadores.
Na mesma linha e mais ou menos na mesma época, achava também muito mal educado por parte de alguns estrangeiros (sobretudo os "turquinhos") que, apesar de saber falar português, falavam entre eles na sua própria língua, na frente dos brasileiros.
Pois bem, o tempo passou, a comunicação evoluiu e hoje a febre das redes sociais e dos aplicativos de mensagens (sobretudo o WhatsApp) ressuscitou este mau hábito de cochichar, só que, agora, virtualmente e em silêncio. Não tem hora nem lugar! Pode ser na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê, o cara pega o aparelho, liga e ingressa no seu mundinho virtual esquecendo as atrações e perigos do mundão real que lhe cerca. Sala de aula, igreja, cinema, restaurante e até nas festas, o vivente vidra na sua telinha, não dando a menor atenção para as pessoas que estão ao seu redor.
Nada contra redes sociais e WhatsApp, mas acho que as pessoas precisam rever seus conceitos. É bom, importante e, ás vezes, até necessário se conectar e interagir com o mundo virtual, mas se trata de algo íntimo que na frente dos outros poderá e deverá passar uma má impressão, de desrespeito, de desinteresse por quem está ali. Assim, convenhamos, conectar-se na frente dos outros é como cochichar na frente dos outros. Conexão com o mundo virtual, como diria Luan Santana: "tem dia, lugar e tem hora."


Por: Marcelo da Costa Teixeira

 
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