Padre Airton Gusmão

sábado, 28 de janeiro de 2017 às 0:00

Contemplar o Evangelho da Criação

Segundo a tradição judaico-cristã, quando dizemos "criação" nos referimos ao projeto de amor de Deus, onde cada criatura tem um valor e significado. Desta forma, todos os cristãos, a partir das suas convicções de fé, são chamados a "cultivar e cuidar a criação" (Gn 2,15) como dom Deus, objeto da sua ternura.
Neste sentido, a Campanha da Fraternidade deste ano nos convida a reconhecer o valor e a fragilidade da natureza, de modo especial dos biomas brasileiros, e a agir com responsabilidade, liberdade em relação a esta maravilhosa obra da criação, sob pena de destruirmo-nos a nós mesmos. Nenhum ser humano tem o direito de dominar ou controlar irresponsavelmente qualquer outra criatura, porque todos nós avançamos "para uma meta comum que é Deus, numa plenitude transcendente, onde Cristo ressuscitado tudo abraça e ilumina". (Laudato Si, n.83). Com efeito, o ser humano tem esta missão de reconduzir todas as coisas ao seu Criador, inclusive a natureza como linguagem do amor de Deus, da sua ternura por nós. "Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra". (Idem, n.92). De fato, necessitamos hoje de uma sincera conversão ecológica porque, quando maltratamos a natureza, maltratamos também a nós mesmos.
Deste modo, segundo o Papa Francisco, o grande pecado que vivemos, atualmente, é a indiferença, a conformidade com o que ele chama de "mundanismo espiritual" que nos atrai a buscar somente a glória humana, o bem-estar e transforma tudo em lucro. Este é o espírito do mundo que busca os próprios interesses, que retira do seu horizonte o seu Criador e que está na base desta crise ecológica em que vivemos. Quando não reconhecemos a Deus como Pai e ao outro como irmão, tampouco conseguiremos ver na natureza a presença inefável de Deus. Podemos olhar isto à luz do Evangelho deste final de semana que relata o famoso sermão das Bem-aventuranças. Nele está contido um estilo de vida para todo cristão cuja referência está em Deus e no seu Reino. De fato, as Bem-aventuranças nos afastam dos falsos valores do mundo e nos aproximam dos verdadeiros bens, presentes e futuros, ou seja, a felicidade não está no ter, no prazer e no poder, mas no seguimento fiel a Cristo que nos conduz pelo caminho da cruz à glória da Ressurreição.
Este ensinamento deve tocar toda nossa condição humana. O projeto de Deus gira em sentido contrário à lógica do mundo. São os pobres, os humildes, os que aceitaram despir-se do egoísmo, do orgulho, dos próprios interesses que são verdadeiramente felizes. Bem-aventurados são também aqueles que, ao contemplar o Evangelho da Criação, descobrem a riqueza inesgotável de Deus.
Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação e perseverantes na oração. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.


Por: Padre Airton Gusmão

 
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