José T. Giorgis

terça-feira, 24 de janeiro de 2017 às 17:05

Lautaro, amigo chileno

Há dias subi à biblioteca, ou "mansarda", como gosto de chamar ao pavimento superior da casa, de onde miro um coqueiro, a pitangueira, os figos gota de mel, a parreira alquebrada; e o jasmim escuso com cheiro de infância. Possivelmente lá fui para tatear algum livro, talvez aspirar ao suor envelhecido de páginas rugosas. Ou escolher um proscrito ao patíbulo da doação.
Desobediente, a mão lasciva escorre e abraça volume acinzentado, a capa desafeita ao miolo, as pregas à vista: o "Extravagario", de Neruda, uma edição argentina de 1954. Reconto a história.
Selecionado para bolsa nos cursos de verão na Universidade de Concepción, estava na fila para um jogo do campeonato mundial de basquete, pois ali era sede do grupo composto pela Argentina, Estados Unidos, Formosa e Egito. Na minha frente, um jovem sorvia os poemas de Pablo.
O diálogo foi natural, alongado e afável; e, surpreso com o meu apreço aos versos, Luiz Faúndez, eis o nome do moço chileno, entregou-me o exemplar, anotando "Concepción 31/enero 59. Ciudad Universitaria. Que no sólo la amistad nos una sino también los ideales. Afectuosamente a Pepeiro. Lucho". Pepeiro, para os castelhanos, é o mesmo que Zezinho. E ficamos amigos naquele período; Lucho era seguidor de Salvador Guillermo Allende Gossens, político que em eleições recentes havia sido derrotado pelo conservador Jorge Alessandri.
Tempos depois, ao fazer périplo brasileiro, Lucho estaciona em Bagé. Fui ao aeroporto com meu pai, ficou nosso hóspede por vários dias. Impressionava sua cultura política e fidelidade ideológica. Teve boas conversas com João de Deus Gonzáles. Visitou a Funba, surpreendendo ao reitor Carlos Rodolfo quando questionou sobre o número de vagas reservadas para sindicatos e trabalhadores; mostrei a cidade, os lugares históricos, as origens. Cantou com o Trio D no bar do Picolé. Caminhou pela rua Sete, enfim, se disse encantado quando partiu. Na despedida dei-lhe, como lembrança, discos tradicionalistas, outro de Carnaval e um de Roberto Carlos. Presenteou-me com as "Poesias", de Federico Mistral, um vate de estilo provençal, com a seguinte dedicatória: "Pepeiro. Te solicito com el corazón que pueda decir que tu familia es mi familia porque en ella vivi mi segunda infância, àquel período feliz de nuestra vida. Salud y amistad para siempre. Lautaro Texeira".
Explico: Lautaro foi o líder mapucho e araucano que no século XVI ficou famoso por suas façanhas na expulsão dos espanhóis de Pedro Valdívia, que conquistara o Chile e fundara Santiago e Concepción; Lautaro também era o nome de loja maçônica de Cádiz (1802), integrada por vários "libertadores da américa", como Francisco Miranda, Simón Bolivar, Bernardo O'Higgins e José de San Martin, denominação depois adotada por numerosas oficinas sul-americanas. Texeira foi a forma de homenagear o meu "Teixeira". Lautaro Texeira, então, é símbolo da estima recíproca.
Vencido por Eduardo Frei em 1964, Allende ganha, em 1970, com a Unidade Popular. Seu governo socialista e reformador fere interesses da burguesia e do capital estrangeiro, sendo deposto pelo general Augusto Pinochet, antes seu aliado. Lutando no Palácio de La Moneda, Allende se suicida (ou é assassinado, segundo outra versão) em 11/09/73.
Preocupado, busco informações de Lucho. Sem sucesso. Muitos anos após, de forma ocasional, descubro-o abrigado no Conselho Mundial das Igrejas, localizado na Suíça, entidade supranacional que se debatia pela liberdade, democracia e direitos humanos dos povos.
Desde então nada mais soube de Lautaro, meu irmão chileno.

(*) Diretor do Memorial do Judiciário do Estado.


Por: José Carlos Teixeira Giorgis

 
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