Afonso Motta

sábado, 26 de outubro de 2013 às 0:06

Trabalho flexível

Para nós que somos trabalhistas, não só pelo significado do trabalho para a vida e para a produção,

...mas por sua evolução em direitos e garantias, possibilitando melhor renda e bem estar nas relações sociais, servem de alerta as alternativas que estão sendo implementadas especialmente na Europa, para atenuar os elevados índices de desemprego, queda real dos salários e o subemprego. Neste sentido, a jornada de trabalho em muitos países passa a ser flexível, com horário menor e vínculo temporário. É claro que neste caso os questionamentos são relativos aos consequentes salários mais baixos e as verbas rescisórias limitadas no caso dos contratos a tempo determinado. Quer dizer que os vínculos outrora de natureza estável, passam também a ser sem compromisso com o futuro e regidos por tarefas. Como consequência desta alternativa, cada vez mais trabalhadores, especialmente mulheres, trabalham fora do local tradicional, em casa, no trânsito, muitas vezes em espaços distantes de onde está instalado o núcleo de produção da empresa. Portanto, estes fatos e as novas relações entre capital e trabalho estão a provocar um profundo debate sobre o contrato social entre patrões e empregados. Os direitos já não são tão definidos e os planos de carreira em desuso. É claro que tem uma nova economia e a realidade informacional está a determinar formas diferentes de vínculos, mas é necessário não desqualificar as relações entre capital e trabalho. Ao mesmo tempo em que se pode estimular a flexibilidade para mais pessoas permanecerem empregadas, é também importante valorizar as regras que asseguram os mínimos quanto a remuneração e direitos num cenário de crise ou de grandes transformações. É sabido que grandes criações de valor, especialmente intangíveis, com projeção de resultados expressivos futuros, têm permitido elevadas recompensas aos trabalhadores no topo da pirâmide, enquanto às atividades de suporte, com baixa qualificação, menores ganhos e desemprego. Daí porque importa sim a reflexão sobre o conjunto de alternativas que estão sendo elaboradas nas regiões mais deprimidas, mas sem perder a perspectiva de garantias e segurança. O trabalho é e continuará sendo o fator da produção que precisa ser protegido e regulado. O capital, com sua mobilidade, está permanentemente atrás da melhor recompensa. O conhecimento e o uso da tecnologia são decisivos, para o ganho da produtividade, mas é fundamental que os trabalhadores sejam assistidos e possam prosperar coletivamente. Aqui no Brasil, as circunstâncias são diferentes, a flexibilidade é praticamente inexistente. A tendência continua sendo a de ampliação de direitos, através de convenções e regras protetivas. Felizmente o quase pleno emprego que conseguimos tem nos permitido sustentar este cenário positivo. A flexibilidade européia serve, entretanto, de referência para enfrentarmos os desafios futuros com crescimento e emprego. 


Por: Afonso Motta

 
Pesquisar