José Artur Maruri

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017 às 14:53

Há dois mil anos

"A barca de Simeão acostara brandamente à margem, ensejando a que o Mestre se dirigisse ao local costumeiro de suas lições divinas. Sua fisionomia parecia transfigurada em resplandecente beleza. Os cabelos, como de costume, caíam-lhe aos ombros, à moda dos nazarenos, esvoaçando levemente aos ósculos cariciosos dos ventos brandos da tarde.
A esposa do senador não pôde mais despregar os olhos deslumbrados, daquela figura simples e maravilhosa.
Começava o Mestre um sermão de beleza inconfundível e suas palavras pareciam tocar os espíritos mais empedernidos, figurando-se que os ensinamentos ressoavam nas devesas de toda a Galileia, ecoando pelo mundo inteiro, previamente modelados para caminhar no mundo com a própria eternidade.
'Bem-aventurados os humildes de espírito, porque a eles pertencerá o reino de meu Pai que está nos céus!...
'Bem-aventurados os pacíficos, porque possuirão a Terra!...
'Bem-aventurados os sedentos de justiça, porque serão saciados!...
'Bem-aventurados os que sofrem e choram, porque serão consolados nas alegrias eternas do reino de Deus!...'(...)
E a sua palavra enérgica e branda disse da misericórdia do Pai Celestial; dos bens terrestres e celestes; do valor das inquietações e angústias humanas, acrescentando que viera ao mundo não para os mais ricos e mais felizes, mas para consolar os mais pobres e deserdados da sorte.
A assembleia heterogênea escutava-o embevecida nos seus transportes de esperança e gozo espiritual.
Uma luz serena e cariciosa parecia vir do Hebron, clarificando a paisagem em tonalidade de opalas e safiras eterizadas.
A hora ia adiantada e alguns apóstolos do Senhor resolveram trazer alguns pães aos mais necessitados de alimento. Dois grandes cestos de merenda frugal foram trazidos, mas os ouvintes eram em demasia numerosos. Jesus, porém, abençoou-lhes o conteúdo e, como num suave milagre, a escassa provisão foi partida em pequenos pedaços, que foram religiosamente distribuídos por centenas de pessoas.
Lívia recebeu igualmente a sua parte e, ao ingeri-la, sentiu um sabor diferente, como se houvera sorvido um remédio apto a lhe curar todos os males da alma e do corpo, porque uma certa tranquilidade lhe anestesiou o coração flagelado e desiludido. Comovida até as lágrimas, viu que o Mestre atendia, caridosamente, a numerosas mulheres, entre as quais muitas, segundo o conhecimento do povo de Cafarnaum, eram de vida dissoluta e criminosa.
O velho Simeão quis também aproximar-se do Senhor, naquela hora memorável da sua passagem pelo planeta. Lívia acompanhou-o automaticamente, e, em poucos minutos, achavam-se ambos diante do Mestre, que os acolheu com o seu generoso e profundo sorriso.
- Senhor - exclamou, respeitosamente, o ancião de Samaria -, que deverei fazer para entrar, um dia, no vosso Reino?
- Em verdade te digo - replicou-lhe Jesus, carinhosamente - que muitos virão do Ocidente e do Oriente, procurando as portas do Céu, mas somente encontrarão o reino de Deus e de sua justiça aqueles que amarem profundamente, acima de todas as coisas da Terra, ao nosso Pai que está nos Céus, amando o próximo como a si mesmos.
E espraiando o olhar compassivo e misericordioso por sobre a assembleia vasta, continuou com doçura:
- Muitos, também, dos que foram aqui chamados, serão escolhidos para o grande sacrifício que se aproxima!... Esses me encontrarão no reino celestial, porque as suas renúncias hão de ser o sal da Terra e o sol de um novo dia!..."
(Extraído da obra "Há Dois Mil Anos". Pelo Espírito Emmanuel, psicografada por Francisco Cândido Xavier. FEB Editora. p. 135-136)


Por: José Artur M. Maruri dos Santos

 
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