José T. Giorgis

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017 às 0:00

Sed libera nos a malo

Quando folgo na biblioteca para apalpar livros, desejo achar o mais antigo até para louvar comemorar sua senectude. Penso que será do tempo como ginasiano; e de conteúdo religioso.
A fé, ali, impregnava os alunos dos padres, tanto pelas rezas antes do início das aulas, as missas dominicais obrigatórias e o carimbo da caderneta; as procissões, as novenas, o mês de Maria; os oratórios; os certames catequéticos; os retiros espirituais; as prédicas dos púlpitos.
Lembro que na sala onde a mãe costurava fiz um arremedo de altar, fingindo ser o celebrante, pois era coroinha, acordando cedo para atuar na missa das oito ou das nove, a das dez era reservada para os mais veteranos; depois da solenidade se era premiado com um bom café matinal no refeitório dos salesianos, onde tudo surgia, como mágica, de cilindro giratório oriundo da cozinha, o pão quentinho, a manteiga. "Ajudar a missa" era galardão. E "de primeira", um orgulho. Explico: "de primeira" era o auxiliar que ficava abaixo e à direita do sacerdote, com a missão de soar a campainha na elevação do cálice; também de portar a pátina na repartição das hóstias; o "de segunda" transferia de um para outro lado o suporte com o evangelho, travessia de um para outro lado que obrigava uma genuflexão respeitosa; ou era quem oferecia as galhetas de ablução antes da comunhão; contudo, a glória estava nos deslocamentos internos na nave em certas festas, onde os coroinhas se vestiam como pajens, de sobrepeliz, um deles conduzindo o cibório que espalhava a fumaça da bênção, as mães sorriam e apontavam "é meu filho".
No recreio do colégio se contava que venerando religioso, atropelador do rito e que mal articulava as palavras em vista da provecta idade, não ouvindo o sinete, virou-se para o acólito e despejou impropérios, tipo "bate o sino, desgraçado". Os maledicentes diziam não serem estas as palavras exatas.
Estão a notar, pois, que a missa ainda era em latim, o oficiante de costas para o povo, apenas se voltando em raros momentos. Há alguns anos, em Sevilha, tive a ventura de assistir uma cerimônia como nos "velhos tempos", da época em que os padres trajavam batinas, as igrejas se apinhavam, as mulheres usavam véus para se aproximar do altar, os braços cobertos, fila nos confessionários.
Essas relembranças acodem, pois encontrei o livrinho que deve ser o mais longevo de minha coleção: é um missal de domingo, tem mais de cinquenta anos de guarda (escondo a verdadeira data por razões óbvias); e que comprei em ato de coragem, eis que poucos, outrora, tinham o atrevimento de adquirir publicação desta natureza, vigente ali um "forte respeito humano" pelo temor da "aparência" que obstava alguém de mostrar sua crença.
Nele, de um lado, a missa em latim; na outra coluna a versão portuguesa; todas as etapas, introito, epístola, gradual, evangelho, oblações, ofertório, secreta, prefácio, mementos, comunhão, atos finais; mais orações, salmos, partes fixas e variáveis, via sacra. Até dá vontade de estender os braços e repetir "Dominus vobiscum. Et cum spiritu tuo. Per omnia saecula saeculorum".
Ao manusear o pequeno volume e suas páginas manchadas, os dedos se reconhecem, reanimando vozes, cheiros; as nódoas que sobejaram ao fugidio convívio aquecem a evocação do antanho, trazendo imagens e jeitos. Sinto-me eterno.


Por: José Carlos Teixeira Giorgis

 
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