José Artur Maruri

sábado, 14 de janeiro de 2017 às 0:00

A morte da criatura velha

"(...) Presentemente estamos na segunda epístola de São Paulo a Timóteo, tendo ficado, na última reunião, no segundo capítulo, versículo 10.
(...) Alcíone procurou a epístola indicada e leu o versículo 11 do segundo capítulo:
- 'Palavra fiel é esta: que se morrermos com Ele, também com Ele viveremos'.
Franca a palavra, todos, exceto a pequena Beatriz, que se mantinha calada, opinavam que os homens apegados a Jesus, no fim da vida, podiam morrer em paz, certos que o Senhor lhes abriria, além-túmulo, as portas gloriosas da redenção.
Depois de ouvir a opinião de cada um em particular, Alcíone explanou:
- Certo, a esperança em Cristo será sempre um refúgio indispensável na hora da partida, mas a advertência apostólica nos convoca a ilações mais graves. Lembremos os perversos que aceitam Jesus na hora extrema. Muita gente, portadora de crimes inomináveis, faz ato de fé no leito de morte. Enquanto têm saúde e mocidade, vivem ao léu, entre caprichos e desregramentos; mas tanto que o corpo quebrantado lhes dá ideias de morte, alarmam-se e desfazem-se em rogativas a Deus. Podem, tais criaturas, esperar de pronto, imediata, a glória do Cristo? E os que se sacrificam nas aras do dever enquanto lhes resta uma partícula de forças? Claudicaria a justiça, em suma, se afinal a virtude se confundisse com o crime, a verdade com a mentira, o labor com a ociosidade. Certo que será sempre útil recorrer à misericórdia do Senhor, ainda que manchados até aos cabelos, bem como acreditar que, para toda enfermidade, haverá remédio adequado. Penso, porém, que a assertiva de Paulo não se refere ao termo da vida corporal, fenômeno natural e apanágio de justos e de injustos, de piedosos e de ímpios. Bafejado pela divina inspiração, o amigo do gentilismo aludiu, por certo, à morte da 'criatura velha', que está dentro de todos nós. É a personalidade egoística e má, que trazemos conosco e precisamos combater a cada dia, para que possamos viver em Cristo. A existência terrestre é um aprendizado em que nos consumimos devagarinho, de modo a atingir a plenitude do Mestre. No plano da própria materialidade, poderemos observar esse imperativo da lei. A infância, a mocidade e a decrepitude, em seu aspecto de transitoriedade, não podem representar a vida. São fases de luta, demonstrações da sagrada oportunidade concedida por Deus para nos expurgarmos da grosseria dos sentimentos, da crosta de imperfeição. Costuma-se dizer que a velhice é um ataúde de fantasias mortas, mas isso apenas se verifica com os que não souberam ou não quiseram 'morrer' com o Cristo para alcançar a fonte eterna da sua vida gloriosa. Quem se valeu da possibilidade divina tão somente para cultivar ilusões balofas, não poderá encontrar mais que o fantasma dos seus enganos caprichosos. A criatura, porém, que caminhou de olhos fixos em Jesus, em todos os pormenores da tarefa, essa, naturalmente, conquistou o segredo de viver triunfante acima de quaisquer circunstâncias adversas. Jesus palpita em seus atos, palavras e pensamentos. Seu coração, na pobreza ou na abastança, será como flor de luz, aberta ao sol da vida eterna!..."
(Extraído da obra "Renúncia". Pelo Espírito Emmanuel epsicografada por Francisco Cândido Xavier.FEB Editora. P. 385-386)


Por: José Artur M. Maruri dos Santos

 
Pesquisar