Marcelo Teixeira

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017 às 15:34

Ócio criativo

Desde que me conheço por gente ouço dizer que "cabeça vazia é oficina do diabo" e minhas experiências de vida permitem concluir que na esmagadora maioria das vezes esta máxima da sabedoria popular é absolutamente verdadeira. Normalmente quem não tem o que fazer, fica pensando bobagem, inventando coisas, procurando (e achando) guampa em cabeça de cavalo, cabelo em ovo, etc. Todavia, todos sabemos que é fundamental para a nossa saúde descansarmos a nossa "cabeça", ficarmos um tempo sem fazer nada. Tempos atrás fiquei sabendo de um movimento denominado de "nadismo", uma espécie de doutrina que prega o "fazer nada" (ou o não fazer) como fundamental para a saúde humana. Nesta mesma linha de raciocínio - de que o fazer nada é fundamental - já tinha ouvido Lya Luft denominar de "falsa vagabundagem lírica" aquele momento em que os escritores, ao fazerem nada ou ao olharem para o nada, ficam buscando inspiração para as suas obras. Esta importância do "fazer nada" para a criação intelectual já foi apelidada de "ócio criativo" e foi reconhecida até por Ivete Sangalo como fundamental para o aprimoramento do seu trabalho e o de sua equipe.
Diante de opiniões e verdades tão conflitantes sobre os efeitos do ócio, fica uma certeza e uma dúvida. A certeza é de que os efeitos positivos e nocivos do ócio estão ligados diretamente à sua dosagem ou circunstância. A dúvida é saber a partir de quando ou em que circunstância(s) o ócio deixa de ser positivo e passa a ser negativo?
A busca pela resposta para esta pergunta proporcionou para mim uma insólita analogia com outra máxima muito popular que diz que "dinheiro não é tudo" ou que "dinheiro não traz felicidade". De fato dinheiro não é tudo nem traz felicidade, mas observe que quem costuma dizer (e entender) isso são exatamente aqueles que têm dinheiro, ou seja, só aquele quem tem dinheiro é capaz de entender que o dinheiro não compra tudo e que as coisas mais importantes da vida não estão à venda. Assim como só quem tem dinheiro consegue dar valor às coisas que o dinheiro não compra, só quem nunca tem tempo disponível consegue valorizar o ócio. Por outro lado, quem não tem dinheiro acha que o dinheiro é tudo e quem não faz nada na vida, não consegue fazer um bom proveito das horas vagas.
A expressão "ócio criativo" ao mesmo tempo em que sintetiza muito bem a influência do ócio, é genérica o suficiente para abranger não só as influências positivas, mas, também as negativas. Quando não fazemos nada, ficamos mais criativos, mas se não temos onde usar toda esta criatividade, a tendência é de que acabemos canalizando-a para coisas negativas. Assim, a criatividade não é necessariamente positiva, visto que ela é, também, a principal ferramenta da oficina do diabo.


Por: Marcelo Teixeira

 
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