Marcelo Teixeira

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017 às 15:22

A ética do urubu 2

Definitivamente, 2017 não começou bem! Chuvas torrenciais aqui e no resto do Estado, chacina na festa de Ano Novo de uma família em Campinas com doze mortes, massacre em um presídio de Manaus com 60 mortes. Infelizmente, aquele clima de pesar que marcou o fim do ano passado com a tragédia do voo da LaMia, que vitimou quase o time inteiro da Chapecoense, além de jornalistas e tripulação, continua vigendo.
Só por isso já há razões suficientes para lamentar, mas, para completar, paralelamente, percebo pessoas querendo tirar proveito destas mortes ou, até, fazendo piada com a morte dos outros, como foi o caso do Jorge Pontual, jornalista da Globo, que fez uma piada de mau gosto ao comentar a morte precoce da atriz Carrie Fisher, a princesa Léia do filme Guerra nas Estrelas, filha da Debbie Reynolds. Pediu desculpas, afirmou que não tinha a intenção de menosprezar o ocorrido, mas isso não muda o fato de que foi muito infeliz.
Isso não é novidade! Até quando Ayrton Senna morreu, fizeram piada. Ano passado, quando o ator Domingos Montagner - o Santo, da novela Velho Chico - morreu afogado, além de piadas, levantaram suspeitas sobre um suposto caso entre ele e Camila Pitanga. Neste contexto, a piada com Carrie Fisher até fica menos grave, mas, mesmo assim, é um ato de desrespeito que deve ser evitado.
Pior do que fazer piada, todavia, é tentar tirar proveito da morte de alguém. Anos atrás, após o acidente da TAM que vitimou dezenas de gaúchos, alguns parlamentares quiseram fazer uso político da tragédia para atacar o governo Lula. Na época escrevi sobre esta tentativa de tirar proveito de uma tragédia e a denominei de Ética do Urubu.
Pois bem, nesse momento, percebo uma atmosfera semelhante e volto a falar no assunto, pois, ano passado, quando caiu o avião da LaMia, a milagrosa sobrevivência de alguns evangélicos, inspirou outros a sugerir que seu modo particular de cultuar a Deus poderia explicar aquele milagre. Quando o louco matou 12 pessoas numa festa de Ano Novo para "se vingar" de sua ex-mulher e dos familiares dela, algumas feministas não demoraram em apontar o machismo como culpado pela tragédia. Agora, com o massacre de Manaus, já tem gente colocando a culpa na "privatização" do presídio.
Não quero dizer com isso que os evangélicos estejam errados e não sejam merecedores das graças de Deus, nem que o louco que chacinou a família da ex-mulher não tenha sido influenciado pelo machismo e muito menos que a empresa terceirizada que fazia serviços no presídio de Manaus não tenha responsabilidade no ocorrido, mas daí a tirar proveito de um clima de comoção para simplificar a análise de casos complexos como estes, só para reforçar sua fé, tese, doutrina ou opinião, vai uma distância muito grande.
Estas reações são tão precipitadas quanto oportunistas e só não são piores que as tragédias que elas buscam explicar. Essa é a "Ética do urubu", que consiste em tirar proveito próprio do defunto alheio.


Por: Marcelo Teixeira

 
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