Fernando Risch

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016 às 16:06

O rosto típico do cidadão de bem

Só um imbecil afirma que preconceito não existe. Ou melhor, só um imbecil afirma que é desprovido de preconceito. Pior que isso, só um imbecil completo se autodenomina "de bem". Ninguém é do bem. Somos selvagens. Animais numa selva de banalidades e cretinices. Somos todos preconceituosos; a diferença está entre aqueles que sabem tratar seus preconceitos daqueles que os expõem, como cretinos exemplares.
Luis Carlos Ruas, de 54 anos, na noite de Natal, foi assassinado no metrô de São Paulo por dois cidadãos de bem. Ele foi brutalmente espancado. No chão, inconsciente, teve sua cabeça pisoteada, seu rosto chutado, levou socos nas mais diversas áreas do corpo: do escroto à boca. Tudo isso perpetrado por cidadãos de bem, que estavam ali, em suas consciências, fazendo o bem para a sociedade.
Cidadãos de bem que, por um instinto ignorante, por não aceitarem a diversidade, resolveram sair pelas ruas para espancar homossexuais. Porque o gay, para o cidadão de bem, é uma doença que precisa ser curada na base da porrada, da morte. Luis Carlos Ruas não era gay, ele só quis defender dois travestis que apanhavam no metrô, pedindo para que parassem de agredi-los. Acabou morto. Morto pelo cidadão de bem.
Homofobia mata. Mata uma pessoa a cada 28h no Brasil. Mata pelo ódio, porque não há outra explicação plausível para justificar um dado tão bisonho, a não ser ódio. Ódio o qual o cidadão de bem se alimenta diariamente, recebe enxurradas de pensamentos acéfalos que, de uma forma torpe, justificam seus atos como a simples ação do livre arbítrio. O ódio no Brasil tem pai. Ações como estas têm um mentor maior, cunhado na mitologia autoritária, que fala as besteiras que quer e sai impune sempre.
O imbecil padrão dirá que heterossexuais também morrem espancados no Brasil. Voilá, gênio. Um acabou de morrer. Num ato homofóbico, mataram um hétero. Todo mundo morre pelas mais diversas formas. Um hétero não morre por ser hétero. Um gay é caçado e morto por ser gay. De que outra forma este crime ocorreria, se o ódio homofóbico não estivesse intrincado aos assassinos? Eles poderiam viver suas vidas normalmente, mas resolveram sair por aí, como bons seres humanos que pensam ser, e espancar pessoas por não concordarem com sua sexualidade.
Como eu disse anteriormente, só um imbecil se denomina "do bem", como um dos assassinos se autoproclamou, após ser preso. Ele é do bem. Faz o bem. Luis Carlos Ruas não vai ser o último a fazer parte desta estatística. Sequer sei se entrará para ela, ele não era homossexual. Ele apenas pedia paz. Infelizmente, há muitos imbecis encarcerados em suas próprias casas, apenas esperando a carta branca para liberarem seus preconceitos.
Na próxima vez que você, leitor, definir-se como "cidadão de bem", pense duas vezes. Ou três. Ou morra pensando. Feliz 2017. Para aqueles que conseguirem chegar nele.


Por: Fernando Risch

 
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