Marcelo Teixeira

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016 às 15:33

Plano de carreira

Quando o Adriano Gabiru veio jogar aqui no Guarany, muito se comentou sobre a decadência da carreira do jogador que mudou a história do Internacional, que teve atuação decisiva no maior certame de clubes promovido pela Fifa e que, naquele momento, iria disputar a terceira divisão do Campeonato Gaúcho.
Na época comentei com um amigo que a torcida colorada não poderia deixar um jogador tão importante para o clube passar qualquer necessidade financeira. Teríamos que promover vaquinhas, promoções e contribuições voluntárias para garantir que Gabiru não terminasse seus dias morando embaixo da ponte e sem ter o que comer.
Alguém que ouviu a conversa disse que Gabiru, após a conquista do mundial, teria botado a mão em mais de um milhão de reais, mas, como acontece com muita frequência no mundo do futebol, torrou o dinheiro todo. No caso dele, teria gastado com a família e não restou quase nada para garantir o longo futuro de quem se aposenta cedo.
No ano anterior, já tinha ouvido o jogador Dinei confessar algo parecido. Tinha colocado na mão mais de um milhão de reais e torrou tudo com bebedeiras e prostitutas em festas nababescas com os seus amigos.
No mundo do futebol, a regra é se aposentar muito cedo - antes dos 40 anos de idade - e a exceção é conseguir fazer um pé-de-meia capaz de garantir uma aposentadoria tranquila. A esmagadora maioria dos jogadores não ganha tanto a ponto de conseguir fazer um pé-de-meia que garanta uma boa aposentadoria, e, alguns, como Dinei, torram as fortunas que ganharam como se não houvesse amanhã.
Estes exemplos ilustram que algumas profissões não permitem envelhecer trabalhando, sobretudo aquelas que remuneram menos e que exigem esforço físico.
Neste contexto, uma reforma previdenciária que exija idade mínima de 65 anos e contribuição por 49 anos para ter direito a aposentadoria integral, se torna quase um deboche. Um deboche à lógica, ao bom senso, à natureza humana, aos direitos adquiridos, etc. É só fazer a conta, pois, para chegar aos 65 anos de idade com 49 anos de contribuição, terá que começar a trabalhar aos 16 anos de idade e não parar de contribuir um mês sequer.
Para provar que a maioria das profissões não permite o envelhecimento, basta visitar empresas antigas, com mais de 50 anos de atuação no mercado, por exemplo, e constatar que contam sempre com um quadro de funcionários jovens e, quase sempre, com boa aparência. Onde estão os velhos? Estivador velho, servente de obra velho, bombeiro velho, jogador de futebol velho, etc, onde estão?
Ainda que seja possível entender a preocupação dos governantes com a "sustentabilidade" do sistema previdenciário, se não vier acompanhada de uma imposição legal de planos de carreira, permitindo, em todas as empresas, que as pessoas sejam promovidas a cargos e funções que possam ser exercidas por pessoas idosas, esta reforma será de uma injustiça gritante. Sem se falar nas "desvantagens" financeiras de se manter funcionários velhos na folha de pagamento, que acabam servindo para justificar a demissão deles.
Se aprovado este absurdo, teremos todos que passar a pensar em aposentadoria privada, mas privada mesmo, como a dos jogadores bem sucedidos, pois a história da previdência privada no Brasil é desastrosa, com milhões de pessoas ludibriadas e prejudicadas por inúmeros empreendimentos (montepios, fundos, etc) falidos, especializados em vender ilusões.
Então, velhinho, ou você trabalha em uma empresa com plano de carreira onde seja possível envelhecer trabalhando, ou você vai ter que fazer o seu próprio plano de carreira e aposentadoria, pois tá pintando que aposentadoria pela previdência social, no Brasil, só se você for o Highlander.


Por: Marcelo Teixeira

 
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