José T. Giorgis

terça-feira, 20 de dezembro de 2016 às 12:45

A fronteira osmótica

A existência de fronteira ampla e aberta que agasalha o território bajeense constitui significativa realidade geopolítica na topografia pátria.

Carece de nitidez o sinal que costuma marcar alguma barreira formal entre as nações vizinhas. Nada nos separa, diria um orador contumaz.
Há um fluxo natural de cá para acolá na medida que outro circula em roteiro invertido como se apenas mudassem sons ou costumes ao transpor a imaginária linha.
Esse intercâmbio assemelha-se à osmose biológica, fenômeno comum na vida dos seres vivos e que consiste na troca de líquidos através da membrana semipermeável das células de uma para outra conforme se altere a concentração dos produtos necessários à sobrevivência do indivíduo.
A muitos chama atenção como esse fato encontra ressonância, e repetição, em episódios que ilustram a história rio-grandense; ou seja, como essa "permeabilidade" da fronteira está presente em numerosos eventos, onde brasileiros ou uruguaios migram com inteira liberdade, fazendo base ora aqui ou acampando lá segundo os seus interesses nacionais próprios, até muitas vezes conjugados no mesmo ideal, em "fraternidade política" a unificar sonhos específicos.
Basta rememorar-se a revolta farroupilha com as diásporas de Bento Gonçalves ou Neto; ou as incursões dos irmãos Saraiva em suas pugnas orientais; ou Joca Tavares, chefiando tropas binacionais que arrancaram da carpintaria em 1893; ou Aparício, de quem se diz haver possuído um sítio em nosso município, ter participado de refregas estaduais, registrando alguns escritores que os pais destes heróis uruguaios (Aparício, Gumercindo, Chiquito) por pouco não se domiciliaram por aqui ao viajarem de Lavras, o que transformaria Bagé na terra natal daqueles líderes, tendo mudado o rumo para Santa Vitória do Palmar ante o clima belicoso daqueles tempos. Um deles, Nepomuceno Saraiva, construiu belo prédio na rua Marcilio Dias, hoje incorporado a uma das mais festejadas empresas locais.
Afirma a professora Ieda Gutfreind, autora de obras seminais sobre a imigração judaica no Rio Grande do Sul, que a historiografia oficial gaúcha construiu um relato sobre fronteiras sempre ameaçadas, ou "discurso da muralha", que objetiva separar o que, por natureza, sempre foi apenas uma continuidade, ou seja, a vastíssima área do pampa. Segundo ela, é a "teoria da fronteira linha", que releva os conflitos entre os impérios e depois entre países independentes, deixando de lado as naturais aproximações e trocas que sempre ocorrem nos dois lados de uma fronteira. Isso decorre da intenção de manter um Rio Grande "brasileiro", com origem em Portugal e sobre o pertencimento do estado meridional do Brasil como uma possessão lusitana. O empenho foi sempre o de elaborar uma história que confirmasse as raízes portuguesas e um sentimento de "brasilidade dos gaúchos", apoiando-se num nacionalismo em defesa da fronteira que faz exacerbar o sentimento pátrio sulino, o de um "gaúcho brasileiro pioneiro dos sentimentos nativistas". Tal se reflete, para Gutfreind, numa "gauchização" dos imigrantes aqui chegados, que abdicam de suas etnias em prol desta "homogeneização".
O correto para a historiadora seria adotar-se a "fronteira zona", propugnada por Jean Chesneaux, que valoriza mais a integração, o convívio, o contato e a aproximação dos lados, dando relevância à fluidez das fronteiras, o que eleva o sentimento de solidariedade internacional, a amizade entre os povos, a fraternidade, deixando de lado rivalidade, discórdias e conflitos.
Essa meditação sugere, então, um maior cultivo entre os pesquisadores bajeenses e uruguaios; a retomada de diálogo, já havido, com troca de dados e informações que sedimentem a memória de cada lado; a realização de encontros binacionais sobre temas comuns; a publicação de obras que versem, especificamente, sobre a fronteira permeável; o trânsito continuado de caudilhos e chefes; etc.
Enfim, uma osmose cultural.


Por: José Carlos Teixeira Giorgis

 
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