Marcelo Teixeira

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016 às 16:11

Aquarius

Um dos filmes mais marcantes da minha geração foi o musical Hair, de 1979, que já iniciava com a belíssima música Aquarius que, além da melodia encantadora, apresentava uma letra muito bem encaixada em cenas e coreografias bem montadas e que faziam a gente sonhar com um mundo melhor, bem diferente daquele que vivíamos.
Um mundo, como dizia a letra, de "harmonia, entendimento, solidariedade e confiança abundante. Nada mais de falsidades ou menosprezos. Vidas de sonhos dourados (...) e a libertação verdadeira da mente." Uma bela história com grande capacidade de encantar e emocionar a juventude da época, criando uma esperança em um futuro diferente, a partir da expansão do movimento hippie e de sua filosofia de "paz e amor", "faça amor, não faça guerra", "é proibido proibir", inspiradora, também, da "Sociedade Alternativa" do Raul. Assim, não foi à toa o estrondoso sucesso do musical que ganhou os palcos dos teatros do mundo inteiro, com uma trilha sonora inesquecível e inspiradora.
E, segundo a letra da música, toda essa transformação ocorreria apenas por influência dos astros, do posicionamento dos planetas e das constelações do firmamento. Ou seja, uma obra de arte que além de entreter, emocionar e inspirar, ainda fortalecia a crença na astrologia. Talvez por isso que eu, assim como muitos da minha geração, curtiam, falavam e entendiam tanto de horóscopo e dos doze signos do zodíaco, determinantes de diferentes traços da personalidade em cada pessoa.
Pois bem, a Era de Aquarius, ainda hoje, estaria longe de começar segundo os estudiosos do assunto, mas a astróloga Maria Eugênia de Quadros, em recente entrevista para o Jô Soares, disse que desde a década de 60 (daí a inspiração para a produção do filme) estamos passando por uma fase de transição entre Eras, ou seja, saindo da Era de Peixes e entrando na Era de Aquário.
O que interessa é que, segundo a astróloga, estes momentos de transição são os mais conturbados, cheios de transformações, redefinições, quebras de paradigmas, revisão de conceitos e reescalonamento de valores. Tudo isso teria a finalidade de preparar o inconsciente coletivo para o porvir.
De fato, vivemos um período de grandes transformações e novidades. Surpresas boas e ruins. Sucessivos e intermináveis ineditismos. Grandes perplexidades, contradições, instabilidades etc. Talvez seja a tal da modernidade líquida de Zygmunt Bauman. Ou seria a mudança de Eras da Maria Eugênia? Ou, ainda, para os mais pessimistas, o Armagedom do Apocalipse bíblico?
A única certeza, infelizmente, é que assim como a velha guarda esperava e torcia por um mundo melhor lá nos anos 70, a jovem guarda continua nutrindo esta mesma esperança quase cinquenta anos depois. O Brasil continua sendo o país do futuro. Muitos vão jurar que no passado era melhor, enquanto outros vão afirmar que hoje é muito melhor do que ontem. Talvez o mundo já tenha melhorado e os pessimistas não tenham percebido. Talvez o mundo nunca melhore, como esperam os otimistas, mas o certo é que no dia em que perdermos a esperança na melhora, a piora será inevitável.
Só nos resta tocar em frente, sem medo do armagedom e confiando nas influências positivas da constelação de Aquário, mas, por via das dúvidas, não podemos deixar de fazer a nossa parte: contribuir para a construção de uma sociedade alternativa a partir da paz e do amor.


Por: Marcelo Teixeira

 
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