Fernando Risch

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016 às 16:05

A vida é uma grande ilusão

A vida é uma grande ilusão. Nossas horas são tão subjetivas que perdemos o controle da própria vida. Sete da manhã e 10 parecem a mesma coisa. Oito da noite e 11, também. Tudo é igual. Tudo é subjetivo. Comemos sem saber por que comemos. Bebemos sem ter certeza do porquê. Acordamos com sono de noites não dormidas. Dormimos à tarde, quando deveríamos estar vivos, despertos, regozijando o que quer que seja.
Uma da tarde também parece cinco. Meio-dia não é mais que uma ilusão sociológica, como fazer fila no banco. Não há uma lei que diga que, sim, devemos ficar um atrás do outro, como gados embretados esperando a pistola do abate. Ao meio-dia, neste embuste alimentício, almoçamos porque somos obrigados a almoçar, mesmo sem ter fome. Temos fome, porque aprendemos a ter fome. E comemos sem saber por que fazemos.
Engordamos sem querer e nos esforçamos para perder peso. Fazemos tudo errado pensando ser o certo. Enganamo-nos. A vida nos engana. Safada. Cretina. Vivemos todos os dias ilusões constantes de uma grande ilusão chamada dia a dia. Giramos a máquina por obrigação, por migalhas no dia 10. E se não o fizermos, morremos pobres, sujos, esquecidos. Iludimo-nos de sermos grandes, por grandezas de valor agregado, como se pudéssemos agregar valor ao impalpável, ao ilusório.
Ao fim do período de cinco dias dos sete que definem o que chamamos de semana, quando a máquina nos dá uma trégua para viver a realidade, esta realidade é tão dura que apenas o que nos resta é enfiarmos na ilusão da recompensa. Abrimos a garrafa e bebemos, em três dias de uma euforia sem sentido. A alegria de sermos expulsos deste ciclo de infelicidade, de obrigações e desagrados, até voltarmos à ilusão da vida, numa segunda-feira de sol, em que acordamos a contragosto para fazermos o que não entendemos por que fazemos.
É sexta-feira, meus amigos. A máquina que nos oprime está chegando à sua pausa ilusória deste sistema que nos deixa com sono em cinco dos pré-estabelecidos períodos de 24 horas, de um período pré-estabelecido de sete destes períodos de horas, que nos faz comemorarmos cada vez que uma sexta-feira surge aos nossos olhos e nos faz sentirmos a incontrolável sede por liberdade. Abram a garrafa e bebam. Bebam suas liberdades temporárias desta grande ilusão chamada vida.

 

*Escritor


Por: Fernando Risch

 
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