José T. Giorgis

terça-feira, 13 de dezembro de 2016 às 18:42

Parabéns, laranjeira

De início, dúvida gramatical, a letra inicial da personagem desta crônica escreve-se com maiúscula ou minúscula? É que se trata de planta em peculiar situação, pois aniversaria.

Recebo, para tanto, original convite de amiga para a comemoração do centenário da laranjeira que ornamenta o pátio da estância de sua família nas Palmas. Local, diga-se, que o lusitano Pureza de Carvalho está a chamar de "Eucalipto", pela quantidade desta espécie sugadora naquele solo sagrado cuja fisionomia de largos horizontes fica escondida atrás de sisudos paredões verdes. E mais, com as placas de indicação da rodagem, revela-se que o simpático distrito, pela sangria das emancipações, em parte, nem mesmo pertence a Bagé.
Dura realidade patrimonial. Já não bastava emagrecer o torrão natal para além do arroio Valente, o Rubicão brasileiro, cuja agradável praia de águas caudalosas era usufruída, em eras priscas, pelas estirpes probas da cidade que aí cumpriam seu veraneio.
A homenagem acode minhas lembranças como professor de botânica, as aulas ensinando que os vegetais são também seres vivos; que nascem, crescem, se reproduzem e morrem tal como os humanos; que as plantas carnívoras engolem os insetos que aprisionam; que as inflorescências abrem como cápsulas, expondo cores e perfumes; a vida sexual delicada das plantas, que muitas vezes exige a intermediação dos insetos ou o auxílio dos ventos; um pó quase invisível acaricia os pistilos, sem machucá-los; os embriões que se incrustam na terra, bebericando humores; a seiva que se eleva; a flor que namora o sol; o ramo que se debruça em busca da luz; a síntese química que cria a vida nas folhas. Sabiam que as plantas também têm "sentimento"?
Um colega de estudos, revoltado com a agressão aos vegetais, resolveu graduar-se como advogado e se dedica a construir um projeto que será proposto aos congressistas, sugerindo a criação de novos tipos penais. Assim, quem abata um arbusto, sem motivo razoável, responde por "fitocídio", com pena de reclusão, infração hedionda, imprescritível e inafiançável; também a "lesão leve fitoherbaceana", punida com detenção e pagamento de cestas básicas; e até delitos contra o pudor das árvores, praticados por "fitossexuais", ou seja, pessoas com pendores de bolinar libidinosamente algum galho ou usar de violência para obter congresso íntimo com árvore enquanto jovem. Mas isso é outro relato.
Penso da laranjeira. Quantas vezes alguém terá sentado em sua sombra para lembrar a amada, mirando a imensidão das coxilhas; quantas vezes não terá reunido os parentes para comungar afetos; quantos negócios não foram acertados sob sua discrição; quantas lágrimas derramadas por ancestrais mortos buscando o consolo em seu silêncio grave. Irmã, confidente, companheira.
Por ora, o que se louva é a festa lá pros lados do Apertado. Dizem que vai ter até missa rezada pelo bispo. Cavalgadas, atividades campeiras, doces de abóbora e laranja, pastéis de carreira, churrasco de cordeiro mamão, muito trago, coldres e bainhas vazias, gaiteiros e piso varrido. Vai ser um baita farrancho. A aniversariante centenária bem merece.


Por: José Carlos Teixeira Giorgis

 
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