Dilce H. dos Santos

terça-feira, 13 de dezembro de 2016 às 0:00

As pessoas são muito difíceis. Ou por que amamos tanto os cachorros

Não existem pessoas difíceis, existem pessoas. O que as torna queridas ou com traços insuportáveis é a proximidade. E talvez não estejamos tão preparados assim para a proximidade que a intimidade impõe e nosso padrão social exige...
Viver em comunidade, em sociedade, é compartilhar muitos espaços e momentos, e esta convivência expõe o que temos de pior, nossos pontos cegos que somente o contracenar da existência pode revelar. São características que a caridade mensal, a foto do perfil, a reunião ocasional com os amigos não conseguem mostrar.
O convívio mais superficial proporciona reações de admiração ou antipatia gratuita, que por óbvio, de grátis não tem nada. Sabemos que temos a tendência a condenar no próximo exata e cirurgicamente aquilo que não reconhecemos em nós mesmos, e enquanto projetado no próximo é um dado que jamais será elaborado ou consertado.
A proximidade atrita tanto que somos obrigados a rever posições, encontrar novas formas de resolução ou enfrentamento. A busca sempre deveria apontar para dentro, ou seja, antes de enxergar problemas nos outros tentar pontos obscuros a virem para luz no espaço do "si mesmo". Aspectos a crescer e humanizar, flexibilizar o olhar e apurar os critérios de ética, caráter, coerência e gentileza cada vez mais. E isso não é fácil porque impõe uma condição, a de não estar sempre certo. É incrível como o orgulho apresentado na forma de quem tem sempre razão  toma conta do espaço que deveria ser do bom senso e do desejo de viver bem. Nesse contexto o ser humano é mesmo insuportável. Jogando apenas para os outros, os do lado de lá, do outro partido, do outro time, da outra religião, as características ruins e fantasiando que do nosso lado só há virtudes e boas intenções, assim nos retiramos do jogo de aprender a sermos mais responsáveis por nossos atos e crescer. Por esta ótica o ser humano é decepcionante, pois é corrupto, cruel, hipócrita, falso, fofoqueiro, desonesto, maldoso, interesseiro, preguiçoso, grosseiro, chato, imprevisível, irritante ou inconveniente.
Na verdade nossa imperfeição é inversamente proporcional a nossa maturidade para encará-la, principalmente através do espelho cruel que o outro muitas vezes representa. Ao afirmar, seja em palavras ou ações, que quanto mais conhecemos as pessoas mais gostamos dos animais, em que categoria nos colocamos? Existe uma piada que exemplifica perfeitamente o porquê da tendência a humanizar os animais (afinal eles nos aceitam sem muita contestação e jamais refletem como um espelho nossa pior face) e a tratar como coisa os seres humanos. A piada é assim: Experimente trancar por uma hora no porta malas do carro seu cachorro e seu parceiro. Quando abrir a porta para soltá-los um deles ficará imensamente feliz em revê-lo. Quem será?


Por: Dilce Helena dos Santos

 
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