Padre Airton Gusmão

sábado, 3 de dezembro de 2016 às 0:00

Conversão para os valores do Reino de Deus

O tempo litúrgico do advento nos ajuda a perceber que estamos a caminho, em meio a um mundo de tantas contradições, com poderosos achando-se os donos do mundo e fazendo da vida humana um desterro sem destino, com tanta injustiça gerando mortes. Também neste caminho temos muitos sinais de vida, com muita gente humilde buscando fazer da sociedade um lugar do grande sonho de Deus.
No Evangelho deste domingo (Mt 3,1-12) vemos João Batista pregando sobre Deus lá no deserto da Judeia. E ele avisa: "Convertam-se porque está próximo o Reino dos Céus". Ele lembra o que o profeta Isaías já havia anunciado, há muito tempo: "Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem suas veredas".
Muitos escutavam o seu convite de conversão, confessando os seus pecados e sendo batizados. Dentre tantas pessoas que vinham até ele, apresentaram-se os Fariseus e Saduceus, conhecidos por seus acordos políticos corruptos, por seu apego à lei e à tradição, com muitos interesses pessoais.
Porém, estes grupos não vinham para uma mudança de vida. Vinham apenas para cumprir um ritual a mais, um costume social sem compromisso, fechados aos apelos de Deus com seus pecados de injustiça social. A estes grupos, João Batista dirigiu palavras duras, chamando-os de "raça de cobras venenosas" e convidan-os a uma conversão sincera e real dizendo: "produzam frutos que provem a vossa conversão".
À luz deste convite de conversão do precursor do Salvador, trazemos dois dados, duas realidades recentes em nosso País que, talvez, nem tenhamos a consciência e percepção das consequências nefastas, maldosas e injustas para a vida digna de milhares de pessoas.
No dia 9 de novembro, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania do Senado aprovou a íntegra do relatório da PEC que congela os gastos públicos por 20 anos. Uma decisão injusta, iníqua daqueles que se dizem representantes do povo e cristãos, que fere a Constituição Federal no que diz respeito aos direitos fundamentais e a obrigação do Estado em garanti-los. Na verdade são medidas para reduzir os gastos com direitos sociais e aumentar os gastos com o mercado financeiro, diga-se, com os banqueiros.
Nesta semana, no dia 29 de novembro, sob a comoção do acidente aéreo, veiculado intencionalmente de maneira sensacionalista pela grande mídia, quase que despercebido pela grande maioria da população, o Supremo Tribunal Federal declarou que o aborto até o 3º mês de gestação não é crime. Na prática, é a decretação da pena de morte aos não nascidos (é importante lembrar aqui o Mandamento de Deus: Não Matarás). Estamos no tempo do advento, que celebra a gravidez de Nossa Senhora.
A presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), neste 1º de dezembro, em nota, reafirma a posição da Igreja de "defesa da integridade, inviolabilidade e dignidade da vida humana desde a sua concepção até a morte natural" (é importante lembrar aqui a Constituição Federal, artigo 1º).
O papa Francisco recentemente, na conclusão do III Encontro Internacional dos Movimentos Populares, disse que a Igreja pode e deve pronunciar-se e agir especialmente diante das "situações em que se tocam as chagas e os sofrimentos dramáticos, e nos quais estão envolvidos os valores, a ética, as ciências sociais e a fé".
Conversão é mudança de vida. Mas, é preciso perguntar: Mudar o quê? Mudar para quê? João Batista não faz ameaças de pânico entre o povo. Nem julga ou exclui os que chama de serpentes venenosas. Ele chama a atenção para a hora de conversão, da mudança. Mudança de vida dos indivíduos e da sociedade. O Reino de Deus não vai tolerar a injustiça e a exploração das pessoas contra pessoas. Quem estiver vivendo contrariamente ao Evangelho, aos Mandamentos, está convidado a aproveitar a chance de mudar para ter vez neste Reino.
Esta conversão permanente, apresentada por João Batista, compreende dois momentos: o momento da consciência para reconhecer o que está errado e conceber o propósito de mudar e pedir perdão; e o momento da prática que comprova a verdadeira conversão, vivendo a vida que Jesus nos ensina por sua palavra e exemplo, assumindo o amor fraterno, a causa dos fracos.
Isto é preparar hoje o caminho do Senhor, endireitar suas veredas, produzindo os frutos que provem a nossa verdadeira conversão.
Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação e perseverantes na oração. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.


Por: Padre Airton Gusmão

 
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