Marcelo Teixeira

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016 às 17:05

Sonhos, planos e projetos

Se tem uma coisa que é "lugar comum" quando morre alguém, é fazer menção aos planos que o falecido tinha, aos projetos, sonhos, etc. Fala-se isso até no caso de pessoas que já estavam com idade avançada, praticamente cansados de viver ou, como disse Raul, "com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar".
Se por um lado, às vezes, percebemos um certo exagero neste lamento, absolutamente justificado pelas circunstâncias, por outro se trata de uma obviedade ululante, pois todos temos sonhos, planos e projetos e é exatamente isso que nos mantém vivos, que nos motiva a tocar em frente. E isso, independe da idade ou da condição do vivente. Assim, é inevitável que a morte interrompa um futuro projetado, pois enquanto se vive, se sonha e se planeja. Isto é inerente à racionalidade humana.
Todavia, ainda que seja uma obviedade e que seja previsível o lamento dos que ficam, no caso da tragédia de Medellín, que vitimou, entre outros, toda a delegação da Chapecoense, essa questão dos sonhos, projetos e planos ganhou uma dimensão descomunal.
Imaginem um grupo de jogadores jovens, de um time modesto, interiorano, decolando para uma decisão de um campeonato internacional que pode dar uma vaga para a Libertadores, o mais ambicionado campeonato do continente. Deste modo, naquele tubo de metal com asas, certamente quem mais voava era a imaginação destes passageiros que sonhavam com um grande título internacional, com o dinheiro do bicho, com as merecidas férias em um final de ano mega festivo. Com a perspectiva de um 2017 maravilhoso, um futuro próximo com possibilidades infinitas: contratos milionários, jogar na Europa, ser visto e lembrado pelo Tite, a conquista daquele pé de meia definitivo, aquisição de seus sonhos de consumo, carrão, casarão, festão, enfim, todos os sonhos do mundo cabiam naquele voo. Era, para muitos que estavam ali, uma viagem dentro da outra, com certeza.
O problema é que para que tudo isso se realizasse eles teriam que, primeiramente, chegar em Medellín, mas, por uma desgraçada ironia do destino, não havia combustível suficiente para tanto. Infelizmente, o combustível que sobrava para alimentar os sonhos de todos eles, não era o mesmo que faltava nos tanques daquela aeronave. E este "pequeno detalhe" selaria o destino de quase todos eles, ampliando ainda mais a dor dos sobreviventes por saber que um estrago tão grande poderia ter sido evitado com medidas tão simples, como a alteração do plano de voo sugerida pela Dona Célia, funcionária subalterna do órgão responsável pela navegação aérea da Bolívia.
Aqui está a ironia do destino, pois por falta de um melhor plano de voo, condizente com a autonomia da aeronave, os planos de vida de dezenas de pessoas foram precocemente interrompidos, fazendo lembrar Lair Ribeiro, que disse certa vez: "Se você falha ao planejar, você planeja falhar".
Quando veio à tona que a causa do acidente teria sido uma pane seca, lembrei imediatamente de um desenho animado do Pernalonga que marcou muito minha infância pela surpresa do desfecho. A histórinha terminava com um avião caindo de bico em altíssima velocidade, para desespero de todos os passageiros. Lá pelas tantas, quando se aproximava da terra, o avião freia bruscamente e, por centímetros, não se espatifa no chão. Daí o Pernalonga bota a cabeça para fora em uma janela e exclama: "Ufa, ainda bem que acabou a gasolina!" Aquilo me desconcertou. A lógica da força da gravidade sendo vencida pela loucura da força da criatividade. Uma cena capaz de provocar, ao mesmo tempo, espanto e risos.
Que pena que a vida não é um desenho animado do Pernalonga que terminava sempre com um "Por hoje é só pessoal!", deixando a certeza que haveria um amanhã com muitos risos. #ForçaChape


Por: Marcelo Teixeira

 
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