José T. Giorgis

quarta-feira, 30 de novembro de 2016 às 0:00

Na biblioteca de Anonymus Gourmet

Cada qual tem uma mania. Guardar figurinhas. Do time predileto e campeão. Colecionar pinturas. Ou armas. Juntar fotos antigas. E outras. Gosto de livros. Explicação necessária: a leitura é, hoje, meu segundo melhor prazer, talvez agora já seja até o primeiro. Um gosto que vem de herança. E de bons professores. Acumulo centenas de obras não lidas. Esperança de viver mais: serão apreciadas depois. Imagino que o paraíso seja uma grande biblioteca, disse Borges que, cego, descansava a face na bengala, ouvindo, atento, a récita da mãe ou da mulher que substituíam seus olhos. (O cronista deve alongar os trechos iniciais para capturar atenção ao texto). Tudo aqui dito para concluir que aprecio bibliotecas. Não abdico de visitá-las enquanto turista. Londres. Dublin. Em Melk, onde esteve Umberto Eco, um lema encima a entrada: "Ora, labora, lege". Será preciso mais?

Conheci Anonymus Gourmet antes de conviver com José Antônio Pinheiro Machado. O primeiro era, então, personagem sofisticado que pontuava páginas de visitas a bares e restaurantes famosos, e depois em livros de procura voraz, onde transparecia a cultura do figurante, seu gosto culinário, a elegância das maneiras, a sedução pessoal, além, claro, do apreço por bons vinhos. Muitas publicações já se esgotaram, mas vale adquirir as deliciosas "Memórias do Anonymus Gourmet", onde desfilam, por exemplo, um lugar lendário, como o Floridita, em Havana, frequentado por Hemingway; ou o Harri´s bar, em Veneza; o restaurante "Noma", de Copenhague, considerado o melhor do mundo; as andanças pela Paris de Fitzgerald e Joyce; jantares em Lisboa; as saborosas histórias onde delineiam Garcia Márquez, Maugham, Emily Dickinson; atores como Pacino, Eastwood ou Cary Grant; Casanova, Fidel, a ópera de Viena, uma pizza em Lyon; enfim, locais, bebidas e pessoas célebres, uma literatura suportada por estilo prazeroso e leve, como as narrativas e conteúdos. Anonymus também passou para o âmbito midiático, onde possivelmente foi um dos pioneiros nos programas de receitas e iguarias que, levadas também ao prelo, tornaram-se vanguardeiras, assumindo a liderança de vendas.

José Antônio Pinheiro Machado, de tradicional genealogia política, ficou amigo após mútua atuação profissional em demanda forense, geratriz de seminal precedente da Suprema Corte; estima se solidificouquando, em julgamento, lamentei o falecimento de seu pai, constituinte e parlamentar, político coerente com o ideário que venerava, além de talentoso advogado rio-grandense. Razão recente de haver-me honrado com o exame do primeiro capítulo de obra que escreve sobre o Senador Pinheiro Machado, seu ilustre ancestral. Além do aceno, mais uma vez, para a festa de seu natalício, onde, com a esposa Linda, Márcia, a cunhada, e o sobrinho Alarico, todos recolheram as afeiçõesque o aniversariante merece. Depois dos cumprimentos, puxa-me pelo braço e diz: Como gostas de livros vais ter um agrado especial, a "visita guiada" à minha biblioteca. E assim caminhamos por corredores e salas da aprazível residência familiar bafejada pela aragem do Guaíba.
Confesso: não me lembro de outra igual. Aqui, explicava José Antônio, ficam os clássicos romanos e gregos; dobrando outra viela comprida, morava a literatura universal, separada, em outras peças, em americana, inglesa, espanhola, francesa (enorme, pois Pinheiro Machado morou em Paris por vários anos, exilado pelo sistema militar), brasileira (essa, com muitas obras traduzidas) e gaúcha. Em outra área, em périplo longo, os livros de arte, pintura, viagens; o espaçoso escritório, além de erudita produção jurídica, contém edições especiais e obras de culinária, pois outra e vastíssima coleção de livros deste assunto (repito: vastíssima) ocupa, pelo menos, dois compartimentos da casa, local onde se gravam os programas.Pelas janelas vislumbra-se um parque e piscina, lembrando Cícero, quando afirma que, se ao lado de uma biblioteca há um jardim, nada mais falta.
A pergunta era óbvia: quantos? Aí por 10 mil livros, respondeu Pinheiro Machado (sem contar-se o que exista no escritório do centro da capital). Extasiado, volto à sala e degusto uma taça flute com champagne. Da adega do Anonymus Gourmet.


Por: José Carlos Teixeira Giorgis

 
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