Marcelo Teixeira

sexta-feira, 25 de novembro de 2016 às 15:59

Homens brancos de meia-idade

Realmente o fim deve estar próximo, pois nunca antes na história deste País, tanta coisa precisou ser revista, desconstruída, reconceituada, reavaliada. Tempos atrás me insurgi contra a expressão "droga lícita" atribuída ao álcool e ao cigarro, pois tínhamos mais leis, fiscalizadas com mais rigor, com maiores restrições e consequências (sanções) para quem consumisse álcool e cigarro do que para consumir qualquer outra droga. Para ilustrar, ao que me consta, até hoje as operações de balada segura são equipadas com o popular bafômetro, mas a maioria ainda não dispõe do kit que detecta o consumo de outras drogas. Assim, o consumo do álcool será severamente punido, enquanto o de outras drogas, pelo menos por enquanto, não.
Já a lei antifumo prevê multa de até dois mil reais para o estabelecimento comercial que permitir que alguém fume em seu interior, mas se alguém consumir qualquer outra droga que não faça fumaça dentro de um estabelecimento, não há punição nenhuma prevista em lei.
Assim, quais são as drogas lícitas mesmo?
Pois bem, há décadas afirmo que na sociedade brasileira (e em quase todas as sociedades do mundo) somente quem não sofre discriminação é "homem branco de meia-idade", casualmente (ou não) a imagem de Deus e de Jesus Cristo. Todo o resto que não se enquadrar neste "perfil" simplificadíssimo, sofre algum tipo de discriminação: mulheres, negros, mulatos, amarelos, crianças, jovens, velhos. Daí a necessidade de leis para proteger estes que sofrem as mais diversas discriminações cotidianas.
Este perfil simplificado do "homem branco de meia-idade" não considera, por exemplo, a condição financeira do vivente. Assim, poder ser complementado e passar a ser "Homem branco de meia-idade, de classe média ou superior". Ou, ainda, "Homem branco de meia-idade e heterossexual." E assim poderíamos continuar completando o perfil com outros adjetivos como magro, bonito, cabeludo etc.
Paralelamente a isso, porém, muitos daqueles que não se encaixam neste perfil e que são vítimas de discriminação, se autodenominam de "minorias". Comecei a pensar sobre isso e fui atrás dos números oficiais do IBGE para confirmar e descobri os seguintes dados sobre a população brasileira: negros são 54%; mulheres, 51%; jovens (de zero a 29 anos),51% e idosos (acima de 60 anos) são 11%. Feitas as contas, homens de meia idade (entre 30 e 59 anos de idade) representam apenas 18% da população. Considerando que 54% deles são negros, homens brancos de meia-idade não chegam a 10% da população brasileira. E se ainda tirarmos os homossexuais e os pobres deste percentual, o grupo mais imune à discriminação fica mais insignificante ainda.
Assim, quem são as minorias, mesmo?
O problema é que o conceito contemporâneo de minoria não está ligado necessariamente à inferioridade numérica, mas, também, à subordinação social, política ou econômica. E é nessa dimensão que os homens brancos de meia- idade, heterossexuais e de classe média ou superior, se destacam por ocupar posições sociais de destaque, de liderança e, por isso, têm tanta visibilidade que parecem ser muito mais numerosos do que realmente são. Na verdade, numericamente, quantitativamente formam ínfima minoria como vimos, mas como são dominantes e influentes, passam a impressão de serem muitos.
No final das contas, estas ressignificações apenas reforçam a tese da modernidade líquida, da fluidez, onde tudo é relativo e inconstante. O lícito vira ilícito e o ilícito vira lícito tão rapidamente que as pessoas ainda acham que o ilícito é licito e que o lícito é ilícito. As minorias nem sempre são minorias e podem ser tanto opressoras quanto oprimidas, tanto discriminadas quanto discriminadoras. Não há quem, em algum ou outro aspecto ou momento, não pertença a alguma minoria e, via de regra, não há vantagens significativas em pertencer a uma maioria.
Ai que saudade das certezas e da precisão dos conceitos!


Por: Marcelo Teixeira

 
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