Arte e Cultura

quarta-feira, 23 de outubro de 2013 às 18:48

O último mecânico de carretas

Ele aprendeu a trabalhar com o pai, que aprendeu com o avô, que veio da Polônia. Aperfeiçoou seus dotes no quartel ferrando cavalos, no distante ano de 1945, quando serviu. Ensinou os três filhos, mas nenhum seguiu no ofício. Aos 90 anos, Gawblinsky apresenta uma saúde de ferro, mas se diz cansado. Afinal, são 63 deles dedicados a um serviço pesado e pouco valorizado. E, que, infelizmente, se extinguirá em breve, visto que as carretas já se foram.

Ele aprendeu a trabalhar com o pai, que aprendeu com o avô, que veio da Polônia. - Créditos: Francisco de Assis
Ele aprendeu a trabalhar com o pai, que aprendeu com o avô, que veio da Polônia.Francisco de Assis
Frágua onde Gawblinsky passou boa parte de sua vida com seus ferros - Créditos: Francisco de Assis Mãos calejadas e um dedo quase perdido na furadeira industrial  são marcas do trabalho árduo - Créditos: Francisco de AssisAs companheiras inseparáveis do ferreiro: a bigorna de 160 quilos e o martelo - Créditos: Francisco de AssisA bagunça organizada do galpão de Gawblinsky, onde somente ele consegue se achar  - Créditos: Francisco de Assis

Trabalhar com ferro remonta ao século XX a.C. na região da Anatólia, oeste asiático, atual Turquia. Substituiu o bronze por ser um metal mais duro, resistente e abundante em jazidas. Os primeiros povos a fabricarem peças artesanais foram os hititas que, nesta época, enviavam seus objetos aos egípcios e fenícios como presente, pois o ferro, na sua então recente existência no globo, valia dez vezes mais que o ouro. Quando o Império Hitita foi destruído pelos povos do mar - grupos que invadiam pelas águas o Egito, a Palestina e o Chipre - em 1.200 a.C. os ferreiros dispersaram-se pelo Oriente Médio e leste europeu, difundindo suas técnicas em outras regiões. Assim outros centros siderúrgicos se formaram até chegarem à Europa central.  

Talvez seja descendente destes artesãos milenares da Anatólia, que se esparramaram pelo velho continente, o avô de Alcides dos Santos Gawblinsky, que veio da Polônia aos 16 anos, na metade do século XIX. A arte de trabalhar com ferro, que passou de pai pra filho, segue pelas mãos judiadas do trabalho pesado do neto, que completou 90 anos em maio de 2013.

É num galpão já torto de tábuas e telhas pesadas, situado à avenida Padre Abílio Sponchiado, zona leste de Bagé, que funciona a oficina sem nome de seu Gawblinsky. Na entrada um portão de madeira de duas folhas, bordado de iniciais e logotipos de ferro de marcar gado, recebe quem chega para solicitar os seus serviços. Em vez de pneus escritos "borracharia", rodas de carreta por todos os lados. O ambiente nos transporta ao passado. Tudo é muito rústico. Da decoração aos métodos de trabalho.

Quando chegamos um radinho de pilha era quase inaudível, pois quem cantava mais alto era o martelo. "Esse aqui é levezinho, pesa só dois quilos, mas tem outro de cinco que eu forcejo um pouco mais", brincou nosso personagem, enquanto pousava para as primeiras fotos, mostrando sua habilidade em lidar com metal pesado e transformando uma talhadeira em um pino de furar concreto em segundos.

Gawblinsky é um ferreiro de mão cheia. Faz todo o tipo de trabalho no seu bagunçado, mas charmoso galpão. Porém um serviço, em especial, acredita ser o único a realizar em Bagé, quiçá no estado: consertar e fabricar rodados de carretas, aranhas, gaiotas, cabriolés e similares.

O maquinário utilizado, se somados os anos, daria um milênio, tranquilamente. Começando por uma serra de fita de mais de 200 anos de existência, segundo ele, da marca alemã Kirchen Leipzig. "Eu sou o quinto dono dessa máquina", disse, enquanto mostrava a funcionalidade do equipamento usado para fazer raios e cambotas para rodas de madeira.

Quem olha de fora se questiona como é possível alguém, sozinho, fazer tudo o que seu Gawblinsky faz. São, pelo menos, cinco máquinas grandes e rudimentares que ele manipula com habilidade ímpar. Sem falar nas barras de ferro, troncos de madeira, marretas, tenazes, rodados enormes e a imponente bigorna de 160 quilos. "Eu já tive cinco pessoas trabalhando comigo, e mais os meus três filhos juntos. Agora faz 15 anos que trabalho sozinho", afirmou, lembrando que, em outras épocas, não dava tempo nem de ir em casa almoçar, tamanha era a demanda, ficando na oficina o dia inteiro e fazendo as refeições lá.

Dentro do galpão residia uma aranha e uma charrete para venda. Fabricação dele que, às vezes, chegam como um amontoado de ferro e madeira para consertar. Seu Gawblinsky não faz caso, atira em algum canto, na sua desordem organizada, pede uns dias e entrega sempre no prazo combinado.

Colocando a mão na massa 

A fabricação ou conserto de rodas de carretas é complexo. Necessita paciência e conhecimento empírico. Não é algo que se aprende da noite para o dia. Começa pela escolha da madeira. "Só uso madeira de lei. Ipê ou cumaru", explicou. Depois se fabrica os raios na serra de fita, curvam-se as cambotas - parte curvada da madeira no rodado - na talhadeira, engraxa-se a massa - parte em que vai o eixo - e, após, segue-se para a chapa, que é o círculo grande de ferro que vai ao entorno da roda, sobre as cambotas.

"As chapas de rodas de carreta chegam a ter oito, nove centímetros de largura", comentou. Elas são superaquecidas na frágua, trabalhadas na bigorna, resfriadas ao natural e temperadas na água. Isso para aumentar a durabilidade do ferro. Devem ficar um pouco menor que o diâmetro da roda de madeira e serem colocadas ainda quentes - com ajuda de uma ferramenta chamada "gato" - quando o ferro está dilatado. "Quando esfria a chapa o ferro encolhe, a madeira chega a estalar de tão apertado que fica", empolgou-se.

O futuro da profissão 

Gawblinsky fez muitas rodas de carretas nesse mundo, no tempo em que Bagé tinha o privilégio de ver carreteiros pelas ruas. Rodados que, de tão pesados, um só homem não conseguia levantá-los, pois alguns eram mais altos que ele.

O olhar do mecânico, ao mesmo tempo em que brilha quando relembra o passado, enubla-se ao prever o futuro. Sabe que sua profissão vai acabar. É inevitável. Cansado do ofício pesado e do jugo da vida, confessou que vai parar de trabalhar em breve. "Vou vender tudo no verão. Até o terreno", confessou. Dos 63 anos trabalhando no ramo, 53 foram no mesmo lugar. "Quando eu parar o pessoal da campanha não vai encontrar outro", lamentou, depositando parte da culpa da ausência de novos profissionais, no governo: "Nunca se preocuparam em fazer escolas para isso", finalizou.

Seu Gawblinsky é mais uma vítima do acelerado processo tecnológico que ocasiona essa ruptura com o passado. Não será o único, nem o último, a amargar a angústia do fim de sua profissão. Muitos outros não encontraram candidatos a assumir um posto no futuro. Profissões como alfaiates, tocadores de realejo e mecanógrafos (quem conserta máquinas de escrever) estão na mesma conjuntura, apenas aguardando o suspiro final.

O mecânico de rodas de carreta nasceu da cultura antiga desse meio de transporte, já em desuso em todo o Rio Grande do Sul. Será assim, também, com os tropeiros e guasqueiros, tão escassos hoje em dia. São as necessidades da sociedade condicionando o mercado, implacável com determinadas tradições, desde a Revolução Industrial. Resta-nos, então, a lembrança, o registro e a nostalgia de uma roda de carreta enfeitando algum jardim ou porteira de estância. Ou, quem sabe, a transformação da oficina de Seu Gawblinsky em um ateliê. Pois alguém discorda de que seus rodados não são frutos de um complexo processo de artesanato?    


Por: Felipe Severo

 
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