Marcelo Teixeira

sexta-feira, 18 de novembro de 2016 às 15:58

A dolorosa chegou

Aprendi com Guilherme Afif Domingos, em 1989, a sintetizar uma das mais injustas mazelas que teimam em se repetir nesse País que, como disse na semana passada, aqui neste espaço, não é sério: no Brasil, os governos privatizam os lucros e socializam os prejuízos.
De fato não se trata de uma realidade "apenasmente" (como diria Odorico Paraguaçu) nacional, mas sim universal, decorrente natural da organização política de uma sociedade, que se mantém graças a uma parcela dos ganhos financeiros dos contribuintes. As únicas fontes de dinheiro que sustentam esta gigantesca estrutura chamada Estado, são os tributos. E somente quem paga os tributos são os contribuintes.
Então, quando falta dinheiro para o governo, não há escapatória, a conta cai no colo do sofrido, espoliado, maltratado e desrespeitado contribuinte, confirmando a máxima de que os governos, malandramente, socializam os prejuízos, gerados, muitas vezes, pela privatização dos lucros.
Esta semana foi riquíssima na ilustração desta lógica perversa e contínua. A prisão do ex-governador carioca Sérgio Cabral deixou muito claro o destino do dinheiro público desviado: as contas bancárias dos governantes, operadores, auxiliares, doleiros e toda a corja de sanguessugas que ficam anos a fio metendo a mão descaradamente no suado dinheiro dos contribuintes.
Aí, terminada a farra, tudo vem à tona e não há dinheiro para pagar os funcionários, os aposentados, a manutenção das viaturas, a merenda escolar, o esparadrapo da Santa Casa etc. Como fazer para resolver este imbróglio? Normalmente o governo que revela este rombo não tem culpa por ele e não resiste à tentação de mirar o bolso dos contribuintes para pagar mais uma vez a conta pelos desmandos do ou dos governos anteriores.
O mais triste disso tudo é que toda esta fortuna desviada em comissões e superfaturamentos raramente é recuperada ou, se é recuperada, é tardia e parcialmente reintegrada aos cofres públicos, insuficiente para recompor o saldo das contas públicas. O problema é que nesse meio, além do dinheiro mal havido ainda tem - e muito - investimentos desnecessários, perdulários, equivocados que não só esvaziam momentaneamente os cofres públicos como ainda criam uma despesa permanente e impagável.
Não é justo termos que pagar esta conta, tanto quanto não é justo responsabilizarmos os atuais governadores pelo caos financeiro que se revelou nas contas das unidades da federação. Justo mesmo seria responsabilizar os ex-governantes, sobretudo aqueles que enriqueceram francamente enquanto exerceram seus mandatos, recuperando rapidamente o 'dinheiral' que eles roubaram para amenizar a situação das finanças públicas. Para aplacar a sede de justiça dos contribuintes, porém, só a punição exemplar destes bandidos de colarinho branco.


Por: Marcelo Teixeira

 
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