Marcelo Teixeira

sexta-feira, 11 de novembro de 2016 às 19:52

O Brasil não é um país sério

Atribui-se ao general francês Charles de Gaulle a frase "le Brésil n'est pas um pays sérieux" que, traduzida literalmente virou a célebre "O Brasil não é um país sério". Ainda que fosse um homem de personalidade forte, uma frase deste calão não combinava com a figura respeitável do grande estadista que marcou a história francesa e mundial.
Tempos depois a verdade veio à tona. O diplomata mineiro Carlos Alves de Souza, em livro lançado em 1979, não somente esclareceu o mal entendido, como ainda assumiu a autoria da frase. Souza explicou que no início dos anos 60, quando a frase foi divulgada pelo Jornal do Brasil, ele era o embaixador brasileiro em Paris e, em conversa com um correspondente do referido jornal na capital francesa, teria pronunciado a frase que, por um erro do correspondente ou de outra pessoa da redação do jornal, acabou sendo atribuída ao estadista francês.
Talvez até por isso a frase tenha ganhado tanta repercussão, rodado o mundo e se consolidado no inconsciente coletivo como sendo de autoria de Charles de Gaulle. Em linguagem contemporânea seria como dizer que ela "viralizou" ou virou um "meme" de grande sucesso.
O curioso desta história toda é que mesmo na pré-história das redes sociais, a opinião pública sempre gostou de estabelecer uma vinculação entre a importância do autor e a relevância da frase. Até hoje muitos usam este artifício de atribuir a autoria de um texto qualquer a uma celebridade respeitável para "garantir" que os destinatários irão dar atenção para ele. Os especialistas em discurso já teorizaram sobre este fenômeno dizendo que o lugar a partir do qual fala o sujeito é constitutivo do que ele diz. Resumindo, se a frase atribuída a Charles de Gaulle tivesse sido atribuída ao seu verdadeiro autor, talvez hoje ninguém mais lembraria dela.
Todavia, neste caso, penso que o sucesso da frase pode estar relacionado mais ao seu conteúdo do que a sua suposta e equivocada autoria, pois ela sintetiza com propriedade ímpar um traço característico da nossa cultura tupiniquim que insiste em não nos abandonar. Reforça e confirma aquilo que Nelson Rodrigues batizou de Complexo de Vira-lata e que Jarbas Passarinho, amarrando uma coisa à outra, resumiu dizendo: "O que vale, entretanto, (...) é a versão, que põe na boca do general De Gaulle a ofensa de que nos orgulhamos".
De fato, diante das tantas mazelas que nos fazem perder a esperança num futuro melhor para o nosso país, não há frase que caia tão bem quanto essa. Talvez até não nos orgulhemos dela, mas para sermos honestos conosco mesmos, não podemos negar o seu acerto no diagnóstico.


Por: Marcelo Teixeira

 
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