José T. Giorgis

quarta-feira, 9 de novembro de 2016 às 0:00

Táxi

O táxi atendeu ao aceno. Embarco. Logo adiante caminham dois papeleiros empurrando os carrinhos atapetados de garrafas e papelões. Além ficam os depósitos onde entregamos achados para descarte. A dupla, aos gritos, desafia a todos e ao trânsito. Alguns moradores replicam. Assim acontece todos os dias. O motorista critica a conduta deles. Amenizo os comentários, afinal é maneira de sobreviver, a atividade é insalubre, os resultados escassos, melhor o ouvido surdo às ofensas. Argumento que eles manquejavam, não pareciam sóbrios. Desvio o diálogo. Será que chove? E as eleições, o campeonato?
Em geral puxo conversa com o taxista. Um dia um deles confidenciou que andava ansioso para comprar um livro para ilustrar os filhos. O assunto era a história do Rio Grande. Foi fácil aparentar cátedra.
Na tarde dos papeleiros, o condutor resolveu confiar seu drama pessoal. Tem mulher. E um casal de filhos, o sacrifício para sustentar com as diárias do carro, ainda mais com a concorrência dos aplicativos. Mas segurava as pontas, ajudado pela esposa. O filho lhe dava alguns desgostos. Mau estudante, péssimas amizades. Experiência com drogas, superada. Agora estava em emprego de pouca remuneração; dispersivo; sem alento, rejeita voltar aos estudos. Está por casa, vai levando.
Quando a filha chegou à maioridade achegou-se a ele e indagou, pai, posso trabalhar? Claro, respondeu, era uma menina respeitosa, caseira, achou logo ocupação. Meses após outra consulta, pai, posso namorar? Embora demorada, a resposta foi sim. A surpresa veio logo, o eleito era conhecido viciado, filho do traficante da zona. Não, filha, pondera, não dou mais o consentimento, não serve para ti; por favor, estás proibida de te encontrar com ele, reprimiu.
O veto nada adianta. Ao retornar, certa vez, soube da notícia pela mãe desesperada, a filha havia fugido, metera-se com o namorado para o interior da vila dos sogros. Sufocaram a decepção, era maior, mas começaram a investigar o paradeiro. Até que localizaram. E quando não mais aguentavam, resolveram conhecer o local. Imagine um pardieiro e separe uma peça frontal quase sem móveis. No fundo um arremedo de banheiro. Uma cama no chão, travesseiro sobre tijolo, ali viviam a menina e seu amado, sob o manto protetor do tráfico. A mãe em lágrimas, não foi para isso que se cria uma menina. A filha, entretanto, inarredável, não se separava do afeto.
Não teve jeito, disse o motorista, engoli o orgulho, trouxe os dois de volta. Para perto.
Quando estacionou, e olhava o taxímetro, completou a narrativa: agora eles eram vizinhos, os dois trabalham, até já compraram um terreno próximo. A filhinha deles é nossa alegria, não sai lá de casa. Infelizmente o rapaz não abandonou o vício por completo, só fuma maconha, que se há de fazer, ao menos não é cocaína, droga pesada ou pedra, concluiu.
O senhor fez bem, gaguejei, desistindo do troco.
Mas com vontade de abraçá-lo.


Por: José Carlos Teixeira Giorgis

 
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