Marcelo Teixeira

sexta-feira, 4 de novembro de 2016 às 16:57

Os omissos

Concluído o segundo turno das eleições municipais deste ano sem nenhuma surpresa no resultado das urnas em relação ao que já antecipavam as pesquisas, restou à grande mídia repercutir sobre a grande quantidade de votos nulos e brancos que, somados à abstenção, em alguns casos atingiu um número superior ao obtido pelos que venceram as eleições.
Os casos mais comentados foram os de Porto Alegre-RS e do Rio de Janeiro-RJ. Na capital gaúcha a soma de abstenções, nulos e brancos chegou a incríveis 433.751 eleitores, enquanto o candidato vitorioso somou 402.165 votos. Contabilizando ainda o número de votos dados ao candidato vencido, o vencedor conquistou a confiança de apenas 36,6% daqueles que estavam habilitados para votar em Porto Alegre. Já na batalha dos Marcelos, ocorrida na capital fluminense, os números não foram muito diferentes. Abstenções, brancos e nulos somaram 2.034.352 eleitores e o candidato vitorioso somou 1.700.030. Fazendo a mesma conta anterior, Crivella mereceu a confiança de apenas 34,7% daqueles que estavam habilitados a votar no Rio de Janeiro-RJ.
Isso até poderia ser um fenômeno preocupante, relevante, revelador, se não fosse, pelo menos, a segunda vez consecutiva - e terceira alternada - que ocorre. No primeiro semestre deste ano, quando os defensores do governo Dilma insistiam na ladainha dos 54 milhões de votos que legitimariam o governo dela, comentei aqui neste espaço sobre a "tripartição do povo" naquela eleição em que Dilma conquistou o apoio popular de 38,1% do eleitorado nacional, enquanto Aécio havia conquistado 35,7% e a soma de abstenções, brancos e nulos somou 26,2%. Decididamente não se tratou de uma vitória folgada e isso, de certa forma, explicava a antipatia popular ao seu segundo mandato, que acabou botando lenha na fogueira política do impeachment.
Pesquisando sobre o assunto na internet, descobri que, antes destas, a eleição que registrou a maior soma de abstenção, brancos e nulos da história brasileira tinha sido a de 1998, para presidente da república, quando superou a marca de um terço da população brasileira. Para ser exato, 40,2% dos brasileiros não votaram ou "branquearam" ou anularam seu voto na eleição que reelegeu Fernando Henrique Cardoso.
Analistas e especialistas fazem diferentes leituras deste fenômeno que insiste em se repetir e dá sinais claros de que tende a se agravar, forçando a discussão sobre a reforma política, sobretudo da polêmica questão do voto obrigatório. Por diversas razões vou me abster de fazer alguma leitura sobre isso, tanto quanto me abstive de votar na última eleição, contribuindo para engordar ainda mais o número de abstenções registradas. Todavia não posso deixar de destacar que isso tudo confirma a regra de que "o exemplo vem de cima", ou seja, no país das omissões governamentais que se acumulam em diferentes pastas e esferas, o povo tem respondido com a mesma moeda: se omitindo também. Quem com ferro fere, com ferro será ferido!


Por: Marcelo Teixeira

 
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