José T. Giorgis

quinta-feira, 3 de novembro de 2016 às 0:00

O exame rosa

Faz algum tempo. Começou com dor incômoda, depois com a eliminação de espécie de linfa untuosa. Em um dos mamilos, mal-estar crescente.
Ensinava aos alunos que as glândulas mamárias eram consequência da evolução dos mamíferos e serviam para nutrir de leite o recém-nascido. Assim os ductos eram atrofiados nos machos e exuberantes nas fêmeas, exatamente para que elas pudessem cumprir a santa missão.
Não é raro que no fim da adolescência, quando algum jovem apareça com glândulas intumescidas, a chacota lembre o anátema das aulas de catecismo: quem abusa do "ato solitário" e assina ficha no partido de Onan será castigado com o inchaço do busto! E aí o mancebo evita praia e piscina, as camisas são folgadas, reduz-se a prática do esporte, tudo para atalhar gracejo e troça.
No caso concreto, como gostam de dizer os operadores jurídicos, a vítima fora seduzida pelo sedentarismo e abdicara do futebol sabatino, para ocupar-se de petições e recursos em busca de sufrágio financeiro para o empodeiramento da família nascente. Resultado: avanço desenfreado das tropas adiposas que ocuparam espaços vagos e incrementaram dobras e volumes.
Quando as evidências se tornaram constrangedoras impôs-se a consulta médica, inicialmente para que se tachasse o fenômeno biológico. O conceito estava nos livros, e se chamava "ginecomastia", ou crescimento das glândulas mamárias, embora a adaptação linear das raízes gregas pudesse significar algo mais comprometedor (vá lá: glândulas femininas). Apartou-se, por natural orgulho masculino, qualquer possibilidade de intervenção hospitalar, sugerida por doutor aparentado e especialista em operações plásticas, mas com a dor a situação se complica.
A soberba, que os eruditos chamam "filáucia", subjugou-se à realidade e, sem jactância, sento na sala de espera do gineco que trouxera minhas filhas ao mundo. Veredito à apalpação: aparência de um nódulo, conselho de viagem à capital para "estudo mastológico".
Na data aprazada, lá estava, cabisbaixo e assustado, aguardando o exame, que por vaidade deixo de descrever, mas é como uma radiografia só que apertando lugares que não se molestam habitualmente.
Após o primeiro teste, (semi) vestido de incompleto jaleco verde, aguardo que se revelem os flagrantes do aparato técnico. Com inusitada frequência passavam enfermeiras olhando fixamente o paciente e com tal insistência que interpreto como mau presságio, algo assim como "pobrezinho", "tão moço". Não preciso reiterar que se fez outra imagem e dali saí com o tradicional envelope selado, que, prudentemente, só veio ser aberto no retorno; e que, no final, não era conclusivo, pois além do incômodo, como dito, o mamilo expectorava uma linfa, exigindo outro procedimento.
Em ambiente ambulatorial, mais tarde, procede-se incisão na aréola, extraindo-se uma porção dos ductos mamários, tudo enviado para exploração patológica, mais alguns dias de ansiedade e preocupação. Em final feliz, nada surge de grave ou anormal. Graças. Sobra a cicatriz.
E o episódio, neste outubro rosa.


Por: José Carlos Teixeira Giorgis

 
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