José T. Giorgis

quarta-feira, 26 de outubro de 2016 às 0:00

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Foi ideia singular conceber jornal literário cujo título era, curiosamente, o conjunto das letras que compõem o alfabeto. Criado por Fernando Borba, Paulo Thompson Flores, Pelayo Perez e Pedro Wayne, quarteto de intelectuais que guiava a cultura bajeense em 1934, o folheto teve vida efêmera: apenas três edições, embora a qualidade de seu conteúdo e o brilho dos colaboradores. Anunciava ser "Literatura nova", "Coisas de hoje", "Jornal que foi a lembrança dessa gente".

Há anos guardo o exemplar que foi presenteado pelo saudoso colega Esaú Maidana Figueró, cuja família dispunha de invejável acervo de periódicos locais. É o número derradeiro, com um "cartão de despedida", escrito por Fernando Borba, em que os redatores dizem adeus às "almas generosas que lhes têm enviado descomposturas e intrigas e coisas outras tão profundamente imorais que não cabem dentro da sinceridade destas linhas". Recrimina ainda que tenha de desaparecer "forçado pela estúpida falta de compreensão daqueles que o apedrejaram, em nome de uma falsa moral", pois "moral caolha e hipócrita não é moral".

Com seis páginas, dispunham os autores de espaço para divulgar seus trabalhos e de outros. Assim, a de Pelayo Perez abrigava "O cuidado com os bebês", um texto jocoso sobre os primeiros anos de uma criança; uma carta dirigida ao poeta Olavo Bilac, "onde estiver", escrito pela "admiradora Arachnídio Aranha"; e meditação sobre o "Amor fraternal", completado pelo pensamento "o casamento é o nó górdio dos maridos paspalhões e feministas". Pelayo também comparece em outro setor com o artigo "Do respeito à velhice".

Pedro Wayne redige o conto "Numa mesa de café", onde se destaca "Ângela, mulatinha clara" que conhecera "virando moça; já fuzarqueira; safada, porém não tão rameira". E narra sobre amigo de quarenta anos que passa "arrastando mulatas pro chateau" e que "ultimamente andou dando umas trepadas seguidas numa delas."

Eugênio Machado, poeta de Dom Pedrito, é autor de inspiradas rimas em "Noite de núpcias" e Telmo Vergara, conhecido escritor gaúcho, dedica a Pedro Wayne os versos de o "Poema pro guri". A última página contém o que considero um dos melhores contos da literatura bajeense: "O necrófilo", de Paulo Thompson Flores. É a história de Menandro, acadêmico de medicina que, esquecendo a caixa do bisturi que usara na aula prática, retorna ao necrotério para buscá-la e se depara com o cadáver de uma moça belíssima de "corpo jovem e nu, de formas perfeitas", que é acariciado e beijado, embora o "gosto de formol". No dia seguinte, o empregado do morgue acha, "nu, o corpo sobre o corpo, boca sobre boca", o cadáver do acadêmico Menandro e "dos pulsos abertos por seu próprio bisturi" escorrendo o sangue, que coagulado, formava a equação da existência: "Amor= vida/morte".

O "ABCDEF..." é um marco na imprensa de Bagé; merecia uma dissertação universitária, quem sabe a leitura em alguma cafeteria; expressa episódio fulgurante das letras conterrâneas por sua originalidade e talento dos integrantes.

Pelo que se deduz, há oitenta anos, os escritores, como hoje, lidavam com a indiferença de algumas autoridades e omissão dos mecenas em fortalecer a cultura que, a final, é um dos produtos mais baratos de incentivar. E um dos que mais projetam uma cidade.


Por: José Carlos Teixeira Giorgis

 
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