Orlando Carlos Brasil

segunda-feira, 10 de outubro de 2016 às 18:06

Grotesco

Longe das incomuns, as cenas grotescas que se dissipam nos ambientes massivos. Mas, também é verdade, a coexistência de semelhantes imagens no diário mundano.
Basta caminhar e olhar, a rua em rotineiras assimilações.

Estrelas
Ato contínuo ao perecimento humano, as estrelas não mudam a postura da indiferença. Como protagonizam, todas as noites, neste meu curto passeio.
Elas apenas esquecem a descendência. Conquisto, óbvio, o revanche pela imortalidade. 

Queimadas
Colocar fogo na terra é proibido. Dizima micróbios e micronutrientes. Para o homem, que está no centro, são perigosos os ventos gerais.
Ao queimar o solo, sem o devido cuidado, a direção dos ares, não raro, troca o endereço da incineração. 

Gênio
"A tentação mais grosseira de um artista é a de ser um gênio". Disse-o George Luis Borges.

Sombra
A luz é a identidade do sol. Só que, em seus horizontes extremos, desde que acompanhada, provoca a sombra. Ou a escuridão. 

Serpente
Estático ou em movimento, o entorno da alma não dispensa a cobra coral. Sorrateira, escondida, a serpente encontra-se perto da inveja e da pequenez. Sai do esconderijo nas distrações dos desabrigados.

Problema
Quando proclamamos 'consegui', vai-se uma pequena etapa do ser. Ao interesse em continuar, devemos eleger outro problema. Hodiernamente, chamado de desafio. Aquele que mostra o desconhecido com temperos de contraditório.

Problema, pelo outro
"Uma riqueza constante torna o homem frouxo, aplausos constantes entorpecem, só a interrupção confere nova tensão e elasticidade criadora ao ritmo que se desenrola no vácuo. Só a desgraça abre uma perspectiva profunda e larga da realidade do mundo".
Em Joseph Fouché - Retrato de um Homem Político, de Stefan Zweig

Certezas
Deixe de lado, de vez em quando, as perfeições. Ou aquelas convicções fundamentadas em fatos que te induzem a dizer certezas. Só o amanhã tem o baralho das coisas terminantes.

Invenções
Mesmo que seja bom para o ego, não queira inventar sempre. Tente, periodicamente, encontrar. Porque duas palavras conhecidas, jamais conjugadas, podem ter, aos outros, um significado mais importante do que um neologismo vulgar.

Entrevista
Em 19 de abril de 1969, Clarice Lispector entrevistou o poeta chileno Pablo Neruda no apartamento de Rubem Braga. Perguntas objetivas e respostas lacônicas constituíram o diálogo. Entre elas, a que segue.
Clarice Lispector - Qual foi a maior alegria que teve pelo fato de escrever?
Pablo Neruda - Ler minha poesia e ser ouvido em lugares desolados: no deserto aos mineiros do norte do Chile, no Estreito de Magalhães aos tosquiadores de ovelha, num galpão com cheiro de lã suja, suor e solidão.


Por: Orlando Carlos Brasil

 
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