Cléber E. Dias

segunda-feira, 30 de setembro de 2013 às 23:42

O cônego Bittencourt e a Educação (III)

Nos primórdios da Igreja Católica em Bagé - vigésima sétima parte -

Conforme havia sido anunciado pelo jornal O Dever no dia 19/02/1904 o Gymnasio Auxiliadora (segundo o relatório do intendente) ou Colégio Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora foi inaugurado no dia 02/3/1904 na Rua 3 de Fevereiro: 
"Ontem, às 9 horas da manhã, realizou-se com toda solenidade a inauguração do colégio Nossa Senhora Auxiliadora, fundado pelos padres salesianos à iniciativa do cônego João Ignácio Bittencourt, digno vigário da Paróquia. O vasto edifício à Rua 3 de Fevereiro, onde  antigamente estava a Enfermaria Militar, presta-se admiravelmente para o fim a que é destinado. Nas grandes salas perfeitamente ventiladas e arejadas foram instaladas aulas e dormitórios, de acordo com as exigências do mais rigoroso conforto e higiene. Numa pequena sala foi instalada a capela para uso dos alunos e professores. O novo estabelecimento de educação foi declarado instalado após breve alocução do cônego Bittencourt e do padre Dell'Oca, diretor do colégio. Foi rezada uma missa, durante a qual se executou sentidas peças a orquestra que dirige o Sr. Bráulio Louzada e composta por professores e amadores. Entre a concorrência notamos grande número de famílias e de conhecidas pessoas de nossa sociedade. A ata de fundação foi assinada por quase todos os concorrentes." 
Embora os nomes do vigário cônego Bittencourt e do intendente José Octávio Gonçalves se sobressaiam nas tentativas para trazer a educação secundária e preparatória a Bagé, deve-se dizer que muitas pessoas somaram-se aos esforços para a vinda dos salesianos, tanto civis, quanto eclesiásticos e militares. Uma das pessoas que também auxiliou, na medida de suas forças, para tal intento foi o então vigário de Lavras do Sul, o padre José Ferreira Marques.
Aos poucos foi crescendo o número dos alunos desta região que já não necessitavam mais deslocar-se para outras regiões para receber instrução de igual ou superior qualidade. O número de alunos das primeiras turmas pode dar bem uma amostragem: Primeiro Ano de Humanidades, 7 alunos; Curso Complementar: 11 alunos;  Terceiro Ano Elementar: 28 alunos; Segundo Ano Elementar: 30 alunos e; Primeiro Ano Elementar: 25 alunos. Os alunos eram provenientes de Bagé, Dom Pedrito, Lavras do Sul e demais cidades da região da campanha ou vizinhos a ela.
Nem tudo foram flores no início, pois aquelas vozes que se insurgiram para não deixar vir a Bagé a educação através da Igreja viram malograr seus planos de deixar a região no obscurantismo em matéria de letras. 
O interessante é notar que sempre aqueles que se colocam contra o acesso à educação ao povo são aqueles que, dizendo-se "ilustrados", "livres-pensadores", "amigos da liberdade" atacam a Igreja que criou e fundou no Ocidente as escolas e as universidades. Em 06/4/1904 aparece em Bagé um bilhete ameaçador contra o "colégio dos padres" e a presença de sacerdotes à frente do ensino. Eis a transcrição do bilhete, com os erros gramaticais de qualquer tempo e a escrita da época: 
"Bagé, 6 de abril de 1904. Um simples aviso ao Director. Esta tem por fim dizer que á muitas pessoas de critério, que estão tratando da expulção dos abutres famintos. Lembrem-se quando foram expulços da Europa, da Hespanha, por exemplo. Os conventos apedrejados e queimados. Estes estão livres destas feras que vem atormentando a Republica Brasileira. Nós, que vivíamos num mar de rozas, nesta pequena e  pitoresca cidade!... Esta prezensa de vos-is aqui é simplesmente nojenta; cínicos, bandidos, fingidos. Deus mesmo há-de protejer-nos, é em nome delle que vosseis fazem as maiores bandalheiras. viva a republica! Viva a liberdade! Morra os padres! Expulcem os bandidos covardes! Morram os padrecos! Abaixo o papado!... viva a liberdade!... NB.Fujam daqui se não querem deixar a casca em Bag! Que para os Bageenses será uma glória!... Se de outras maneiras não conceguirmos, nem que seja uma bala perdida irá cair nesta pelanda que vos-is chamam de corôa. Quando menos pençarem, os populares estaram vencendo este obstáculo!... viva a liberdade!... viva a republica!... morram os padres!".
A história mostrou que nenhum dos populares se insurgiu contra o Colégio Auxiliadora que só trouxe benefícios para a região e que, o bilhete ameaçador, só tem resistido para mostrar além da fúria cega, os erros gramaticais e de ortografia de seu(s) autor(res).
 


Por: Cléber Eduardo Dias

 

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