Melhor Idade

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015 às 0:00

Velhinhos bons de pedal e de vida

O Caderno Melhor Idade nesta edição dedica um espaço especial para o ciclismo praticado por quem tem mais de 60 anos de idade. Por este motivo, a jornalista Rosane Coutinho foi conversar com dois amigos, ciclistas atuantes, em uma manhã de um domingo nublado de dezembro

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.Arquivo pessoal
Ivo em ação no audax e, Teononia, RS, outubro 2013 - Créditos: Arquivo pessoalIvo em ação no audax e, Teononia, RS, outubro 2013 - Créditos: Arquivo pessoalProfessor Bastos e suas conquistas todas comprovadas através de certificados e carimbos nos passaportes - Créditos: Arquivo pessoalAdvogado Antunes com as medalhas já conquistadas nos Audax - Créditos: Arquivo pessoalArnaldo todo equipado em julho 2014 - Créditos: Arquivo pessoal. - Créditos: Arquivo pessoal

Velhinhos bons de pedal e de vida

O Caderno Melhor Idade nesta edição dedica um espaço especial para o ciclismo praticado por quem tem mais de 60 anos de idade. Por este motivo, a jornalista Rosane Coutinho foi conversar com dois amigos, ciclistas atuantes, em uma manhã de um domingo nublado de dezembro. Saber histórias, motivações e a interferência na saúde física e emocional dos personagens da entrevista para contar aos leitores e, quem sabe, motivá-los, são os propósitos desta reportagem.  
Os ciclistas Arnaldo Garcia Antunes e Ivo Corrêa Bastos, 65 e 66 anos, são amigos, participam de provas de longa distância sobre suas bicicletas e esbanjam alegria, otimismo e autoestima.

E eles se tornaram ciclistas depois de aposentados

Certo dia, o escrivão de Polícia aposentado e advogado, Arnaldo Garcia Antunes, 65 anos, pedalava solitário, como sempre faz, quando cruzou por dois ciclistas, um deles, Ivo Corrêa de Bastos, 66 anos, funcionário da CEEE, também aposentado, mas professor de Ciências na ativa. Antunes, então, resolveu contornar e ultrapassá-los. Momento em que foi dada a largada para uma competição de brincadeira, que resultou em mais de seis anos de amizade e companheirismo.
Arnaldo Antunes e Ivo Bastos brincam que são muitas as coincidências que foram descobrindo no decorrer dos anos de amizade, como começar a trabalhar ainda criança, terem a mesma altura, regularem de idade, esposas que os apoiam e, segundo eles, "deixam" que sejam ciclistas tão atuantes. Incluem-se nas coincidências as filhas amorosas e a amizade na família, que descobriram em um circuito que fizeram até Pinheiro Machado, ocasião em que Antunes aproveitou para visitar uma tia e esta revelou ter sido amiga íntima da mãe de Bastos. Para os dois, em escala de importância estão: a família, o trabalho, o ciclismo e os amigos. 

Amizade

O ponto forte da prática de ciclismo é a amizade que se conquista nos grupos formados com o objetivo de "pedalar". Aliás, como diz o professor Bastos "aqui ninguém fala da vida de ninguém, o foco é a bicicleta". E Antunes reforça com "a saúde que se adquire". Para a dupla, os maiores desafios no esporte são as provas de longa distância.

Longa distância

Antunes explica que Audax são provas de ciclismo que têm origem na França e o termo vem de "audacioso", são vários os percursos percorridos de 200, 300, 400 e 600 km, porém, o principal da competição é todos percorrerem a distância da prova dentro do tempo estipulado e obedecendo as checagens nos postos de controle. O advogado exibe suas medalhas e certificados e passaportes com orgulho que tem e diz que o professor Bastos possui a mesma média de provas concluídas. "Iniciamos as provas juntos em 2010", destaca. Poucas foram às vezes em que realizaram pedaladas em que não estivessem juntos, seja em treinos ou provas. Antunes comenta que uma prova de 200 km deve ser completada em até 13 horas e 30 minutos. E as de 300 km em 20 horas. "Todos os 'Audax nós dois brevetamos', ou seja, concluímos. Isso sem cansar e sem quebra de bicicletas. Mas confesso que o Ivo chega melhor do que eu, pois chega com menos tempo", conta Arnaldo Antunes.

Depoimento

"O elo de fraternidade que une os dois é encantador. Eles passaram as duas horas e meia de nossa entrevista brincando. As histórias que o professor faz questão de contar, ele afirma que são com a consoante H no início (de História e não Estória), e são inúmeras, impossível transcrever em tão poucas linhas. Na verdade, bem dariam um livro, um belo livro que falaria sobre superação, solidariedade, vida saudável e amor por viver."
Rosane Coutinho, jornalista

Bons de pedal

"Aqueles velhinhos no decorrer da prova dão um show de estrada na gurizada"

Antunes e Bastos contam a história de um Audax de 200 km que percorreram. Como é costume, na partida da prova sempre deixam os demais participantes tomarem certa distância para, então, considerarem que foi dada a largada. O professor explica que esta medida de largar depois é normal quando a competição tem entre 200 a 300 participantes, momento de maior probabilidade de ocorrer acidentes já que todos estão com muita vontade de começar e os mais jovens possuem maior explosão na largada. Eles se divertem ao contar que sempre nesses tipos de eventos esportivos há o apoio de atendimento médico, com a ambulância, porque como ficam para trás na largada o carro de socorro permanece perto deles, como se pensassem que os velhinhos não vão dar conta da prova. Mas, os profissionais da área de saúde já foram avisados pela comissão organizadora que aqueles "velhinhos" no decorrer da prova dão um show de estrada na "gurizada". E que no meio do percurso eles ainda estão na lenta, no entanto, mais para o final, quando muitos que arrancaram em alta velocidade cansam, aí eles passam à frente.

Fora as provas de Audax, eles contam que já fizeram outros percursos e citam a ida a Melo (Uruguay), Praia do Cassino (Rio Grande) e em Santo Ângelo (Missões). Nesta última, percorreram quase 500 km em duas noites e uma manhã, já que era verão alto, 20 de janeiro, e o calor insuportável. "Nossa primeira longa distância foi a Aceguá, onde saímos dos dois dígitos de quilometragem", lembra Bastos.

Solidariedade e Incentivo

Entre as histórias da dupla é possível perceber que nesse meio esportivo é muito comum haver um senso de solidariedade muito forte entre os ciclistas. Muitas vezes os mais experientes precisaram incentivar os colegas de esporte para concluírem as provas. Seja com uma palavra de incentivo ou com água para os já desidratados. Houve até casos de massagear alguém com câimbra. Para Antunes, só existe uma prova que é impossível vencer: aquela em que se desiste.
Tanto Antunes quanto Bastos contam que já tiveram fases de superação em suas jornadas desde que iniciaram a pedalar. Um ciclista em uma prova de 200 km rompeu os tendões do ombro e foi preciso concluir com apenas um braço no guidão. "Tem momentos na vida que apenas a raça nos guia", define o advogado. Ele diz ainda que sempre colhe na vida o que semeia na mente. "A minha família estava me esperando e eu tinha uma medalha para receber. Por isso, pensei: Eu vou chegar", orgulha-se.
Para ele "Deus existe", pois após três especialistas da cidade o encaminharem para cirurgia em Porto Alegre, conseguiu se recuperar com fisioterapia e sem o uso de tipóia, pois este seria um tratamento de seis longos meses sem poder pedalar. E isto o atleta não aceitava. Como não o fez. Curou-se junto da "magrela", a bicicleta.
Bastos, certa feita, sofreu um acidente de moto, que amassou o menisco de um dos joelhos. Depois de um mês com a perna imobilizada com gesso, o médico anunciou que ficaria com a perna mais fina e mais curta. E provavelmente não voltaria a pedalar. Foi então que tomou a decisão de fazer treinos diários e gradativos na bicicleta ergométrica, em casa, até que pode voltar a pedalar pelas ruas e hoje as pernas estão normais, sem quaisquer imperfeições.

 

O médico anunciou que ficaria com a perna mais fina e mais curta

 

Aprendendo a pedalar

O professor se orgulha em contar que sua esposa Mara Regina Lemos de Bastos aprendeu a pedalar aos 58 anos de idade e por intermédio dele. Hoje, aos 60, ela já fez a proeza de ir até Aceguá de bicicleta acompanhada da filha. O marido conta que Mara Regina já conseguiu reduzir o peso e controlar a hipertensão.

Qualidade de vida é o prêmio

Antunes, que é casado com Vera, conta que tudo que ele faz é proporcional ao idoso que ele é. "No único lugar que eu tenho a força de um jovem é em cima da bicicleta." Tudo é compatível com a sua idade de 65 anos, ele não se compara há um homem mais jovem, já que tem cuidados em sua alimentação, próprias de um atleta, não fuma, não bebe e tem vida sexual ativa. E Bastos completa, "não há nada que fazia aos 40 anos de idade que não faça hoje com quase setenta. Os orientais dizem que para se ter uma boa saúde é preciso comer a metade e se exercitar o dobro, e isso é a mais pura verdade, que ambos concordamos", ensina Arnaldo Antunes. Uma observação da dupla é que no grupo quase não existe fumantes e aqueles poucos que o são a tendência é que deixem o cigarro.
Os amigos ciclistas acreditam que viver aos 65 ou 66 anos realizando provas como o Audax e não sentir dor nas nádegas, colunas ou cervical é algo incomum.
Bastos, após três anos aposentado sentia-se no "último de irritação". Então decidiu começar a lecionar, passando no concurso público do Governo do Estado em 7° lugar e em 11° no Municipal, tudo mudou. Mesmo depois de 19 anos sem dar aula. "Hoje já não vejo mais jeito de parar, mas vou ser obrigado aos 70 anos", reclama. Ele diz, ainda, que a esposa afirma que foi com o reinício do trabalho e ciclismo que o humor do marido regularizou.

Preparação pré-prova

O advogado afirma que quando pedala por 24 horas não sente necessidade de tomar medicação de controle da hipertensão, uma vez que o exercício equilibra a pressão arterial, já que faz muito bem ao aparelho cardíaco. Inclusive, durante esta entrevista, ele faz questão de verificar a pressão, que marca 18/9 e mostra o registro da realizada no dia anterior, após a pedalada: 11/7. Além do check-up anual preventivo, Antunes conta que para as provas de longa distância, que exigem mais do atleta, é de seu cuidado pessoal realizar exames cardiovasculares como: eletrocardiograma de repouso, de esforço, cintilografia, entre outros.
Já o professor, conta que sua preparação é pedalar muito, todos os finais de semana e no mínimo três vezes na semana. Durante o ano, Bastos já percorreu 8.700km. Sendo que destes, 1.350 km foi só no mês de novembro. A alimentação é a mais natural possível, nada de energéticos e, uma semana antes da prova, muito carboidrato. "Minha esposa cozinha muito bem e me cuida, principalmente nessa época pré-prova", salienta.
Arnaldo Antunes ensina que na semana que antecede a prova é bom uma parada estratégica, pois o treino deve ser realizado antes, e na época o atleta tem de se resguardar. No entanto, praticam caminhadas e alongamentos. "Nosso preparo é durante o ano, ainda mais nós dois que somos velhinhos", brinca.
"Nós somos mortais e, certamente, vamos morrer, mas não vai ser por falha do nosso cardiovascular", diz Antunes. Já o amigo ao contar que não tem medo de morrer, avisa que teme ficar muito "velhinho" e dependente de outras pessoas. Embora saiba que teria todo o cuidado da sua família.

 


Por: Gladimir Aguzzi

 
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