Cléber E. Dias

sexta-feira, 27 de setembro de 2013 às 15:48

O cônego Bittencourt e a educação em Bagé (II)

Nos primórdios da Igreja Católica em Bagé

 

- vigésima sexta parte -

Cléber E. S. Dias

 

 

Após a reunião ocorrida no 22 de julho de 1900 cria-se uma comissão para tratar da criação e arrecadar fundos para um colégio de alto nível em Bagé tendo à frente o cônego Bittencourt e o laborioso intendente José Octávio Gonçalves secundados por Plácido Silveira, o coronel José Bonifácio da Silva Tavares, o tenente-coronel Henrique Tavares, Silvano Corrêa, o tenente-coronel Favorino Mércio Pereira e o Dr. Cândido Bastos.

As tratativas com algumas congregações religiosas (agostinianos e lazaristas) fizeram com que seus representantes viessem até Bagé e, no caso dos lazaristas, chegou-se até a marcar a data para a fundação do colégio. No entanto, todos os projetos se viram malogrados diante da decisão unânime da comissão e dos religiosos que os fundos arrecadados não dariam sequer para iniciar o ambicioso projeto. Cogitou-se que o colégio ficaria instalado em lugar provisório e dependente de futuros peditórios para sua efetivação o que não agradou às partes.

Dado que não se conseguiu os fundos para a criação do colégio a comissão buscou contatos com os padres salesianos, tanto pelo fato de os mesmos terem instalado um colégio em Niterói, no Rio de Janeiro, e, no Rio Grande do Sul, em Rio Grande o colégio Leão XIII, quanto pelo exitoso programa educacional junto à juventude desvalida e os filhos das classes mais altas da sociedade desenvolvido pelos padres de Dom Bosco. Esta facilidade de educar a ricos e pobres, segundo o chamado Método Preventivo desenvolvido por Dom Bosco, parece ter sido o chamariz que atraiu a atenção da comissão para os salesianos.

A chegada dos Salesianos no Brasil se deve aos contatos que Dom Pedro Maria Lacerda, bispo do Rio de Janeiro, havia mantido desde 1875 com Dom Luís Lasagna enviado da parte de Dom Bosco. Dom Lasagna fora enviado para lançar a obra salesiana no Uruguai. A chegada dos salesianos no Brasil se dá com a abertura do Colégio Salesiano Santa Rosa de Niterói em 14 de julho de 1883 com a vinda de Luís Lasagna, Miguel Borghino, Carlos Peretto e Domingos Delpiano.

Embora recorressem ao inspetor padre Miguel Rua (inspetor é o título do superior dos salesianos) para negociar a vinda dos salesianos para Bagé e o mesmo concordasse com o projeto, no entanto, à época o Rio Grande do Sul pertencia à inspetoria uruguaia que compreendia nosso estado, o Uruguai e o Paraguai.

Feitas as tratativas com o Inspetor uruguaio Padre Jose Gamba o mesmo enviou para Bagé os salesianos que dispunha para tal obra, razão esta porque os primeiros salesianos em Bagé eram uruguaios. Os primeiros salesianos que aqui se estabeleceram foram os padres André Dell'Occa, Ezequiel Fraga, Roberto Germano e João Ilardia; os clérigos Manoel Ferrando, Jacinto Avella, Felipe Petrini e o coadjutor (irmão leigo) Marcelo Rato.

Um relatório do Intendente Municipal, José Octávio Gonçalves, datado de 20 de outubro de 1903, afirma que a vinda dos salesianos e a inauguração do Gymnasio Auxiliadora estava previsto para março próximo, isto é em março de 1904. Note-se que o desejo do cônego Bittencourt já era acalentado e expresso desde 1900 quando convocara a reunião. Quais os motivos pelos quais para Bagé, uma cidade que em si não era nada pobre na primeira década de 1900, demorou tanto para criar um colégio? Não dispomos de dados precisos para responder tal questão, mas possivelmente colaboraram no atraso algumas vozes dissonantes que viam na chegada de um colégio de padres uma intromissão na educação formal (que não existia!) dos futuros "livre-pensadores" bajeenses, bem como o fato que, para alguns membros da assim chamada elite bajeense, uma educação de escol só poderia ser recebida fora da cidade, talvez em Pelotas, Porto Alegre, Rio de Janeiro ou Paris. Com o tempo e o labor árduo dos salesianos mostrou-se que a educação em Bagé não deixava nada a desejar em comparação aos grandes centros, dado que o método de Dom Bosco trazia consigo professores bem preparados. Chegam, pois os primeiros salesianos a Bagé, vindos do Uruguai em 15/02/1904.

Aos 18 de fevereiro de 1904 o jornal O Dever assim noticiou: ".discípulos de Dom Bosco criador da Congregação de Montevidéu chegaram anteontem a esta cidade oito padres, que vêm estabelecer um colégio que será inaugurado em breve. Sabemos que no próximo dia 24 de julho será colocada a pedra fundamental do grande edifício que será construído o novo colégio". Na realidade não eram oito padres e sim quatro, os demais eram clérigos (subdiáconos? Diáconos?) e um irmão leigo.

O mesmo jornal O Dever no dia 19 de fevereiro de 1904 trazia a seguinte notícia: ". no dia 2 de março será inaugurado o colégio salesiano que vai ser fundado no vasto prédio da Rua 3 de Fevereiro defronte ao Telégrafo Nacional e de propriedade da Exma. Sra. D. Adelaide Galibern dos Santos. Consta-nos que a Congregação Salesiana pensa em adquirir por compra o edifício em que funciona a Enfermaria Militar, de propriedade da Sociedade Portuguesa de Beneficência".

Podemos ter uma idéia de como seria Bagé se o Colégio Auxiliadora tivesse permanecido no mesmo local. Segundo o jornalista, escritor e benemérito historiador Mário Nogueira Lopes, o prédio na rua "3 de Fevereiro" é o atual colégio Mélanie Granier enquanto que a extinta "Enfermaria Militar" estava sediada no prédio onde hoje se encontra o Museu Dom Diogo.


Por: Cléber E. S. Dias

 

Outras Notícias

+ notícias
Pesquisar