Especial Farroupilha

sábado, 19 de setembro de 2015 às 0:00

O que restou da República Rio-Grandense

Os piratinienses valorizam muito a sua história e mantêm um centro histórico que remete à Revolução - Créditos: Fernanda Couto/especial JM
Os piratinienses valorizam muito a sua história e mantêm um centro histórico que remete à RevoluçãoFernanda Couto/especial JM
No Museu da Revolução, localizado onde foi o Ministério da Guerra, na primeira capital, há diversos itens utilizados na época, como as tigelas personalizadas da república - Créditos: Fernanda Couto / especial JMEm Piratini, muitos prédios e cenários da época estão preservados, como a sala de reuniões dos Farroupilhas - Créditos: Fernanda Couto/especial JMEm Alegrete, ainda há a casa de Bento Manoel Ribeiro, o homem mais controverso desta história. É a única referência aos tempos de capital - Créditos: Paulo André Dutra/especial JMNa garagem, hoje desconfigurada, foi o local de impressão do jornal O Povo. Apenas uma placa na parede relembra o fato - Créditos: Fernanda Couto/especial JMA Casa dos Ministérios, principal prédio da república, é tombado, mas está ruindo, na segunda capital Farroupilha - Créditos: Fernanda Couto/especial JMA casa de Bento Gonçalves, em Caçapava do Sul, já foi totalmente modificada e hoje abriga um comércio - Créditos: Fernanda Couto/especial JM

Os impostos já eram divisores de águas no século 19. E foi motivado por eles e também pelo direito de se governar enquanto província, ou seja, não receber ordens do Império, que os fazendeiros se organizaram e se fortaleceram. A maioria pertencia ao Partido Liberal, ferrenho opositor ao regime Imperial. A província possuía uma presidência e uma assembleia com 28 representantes. No dia 20 de setembro de 1835, eles tomaram o poder do presidente Antônio Rodrigues Fernandes Braga.
Quase um ano depois, no dia 11 de setembro de 1836, após uma batalha na região de Seival, onde hoje é Candiota, foi proclamada a República Rio-Grandense. Nem todos os farroupilhas concordavam com a ideia separatista, mas foram convencidos de que era o ideal naquele momento. A partir daí iniciaram uma série de conflitos entre os farrapos e os imperiais. A partir daquele momento deixou de estar em jogo a contrariedade ao governo imperialista, mas sim, a luta pela independência e território. Foram 10 anos de batalhas, até a assinatura do tratado de paz, em Dom Pedrito. Neste tempo, a República teve três capitais reconhecidas, em cidades que existem até hoje.

Piratini
Ao chegar em Piratini, não fosse os trajes da moda atual, é possível cogitar que se entrou numa máquina do tempo e voltou 180 anos. A arquitetura da época, meticulosamente preservada e algumas ruas em que as pessoas só podem circular a pé, demonstram o quanto o município tem orgulho de ter sediado a primeira capital Farroupilha, entre novembro de 1836 e fevereiro de 1839. À época, Bagé era um distrito do município localizado ao Sul do Estado.
Os 33 prédios e monumentos tombados, tanto em nível municipal, estadual e até nacional, remetem ao tempo em que a cidade era o centro da República Rio-Grandense. De acordo com a condutora de turismo Francieli Domingues, Piratini foi escolhida para ser capital por ser um local estratégico, beneficiado geograficamente, onde os Imperiais teriam difícil acesso. "Na época, a vila possuía grande número de casarios e sobrados que foram usados como repartições públicas e ministérios, o que facilitava o desenrolar das ações da nova República. Além disso, a população acreditava nos ideais republicanos, apoiando assim a causa dos Farrapos", conta. Ainda segundo Francieli, o centro histórico é considerado um dos maiores do Brasil.
Entre os casarões preservados está o local onde foi a primeira Câmara Municipal, que aderiu ao regime republicano em 1836. "Sob a presidência de Vicente Lucas de Oliveira, a Província foi declarada Estado Livre, Constitucional e Independente. Nesta Câmara, Bento Gonçalves da Silva foi eleito presidente. No sobrado ao lado funcionava o Ministério da Fazenda, local onde o ministro Domingos José de Almeida cuidava das Finanças da República", situa a condutora de turismo.
O Palácio do Governo hoje dá lugar ao Museu Municipal Barbosa Lessa. É tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1956. "Foi lá que aconteceu a reunião das Câmaras Municipais que declarou Piratini capital da República Rio-Grandense. Local onde Bento Gonçalves da Silva despachava e onde ainda existe a sala onde ele se reunia com seu Estado Maior", explica Francieli.
Os trajes, as armas, as imagens do período também estão resguardadas no prédio que, na época em que Piratini era capital, foi o Ministério da Guerra e uma escola para meninos. O edifício, que hoje abriga o Museu Histórico Farroupilha, foi construído pelo capitão Manuel Gonçalves Meirelles, um tio de Bento Gonçalves. Esta é outra edificação tombada pelo Iphan, desde o princípio da década de 50.
Uma das importantes armas utilizadas à época era a propaganda. Os farrapos criaram o Jornal O Povo, elaborado pelo jornalista italiano Luigi Rossetti, que foi impresso na casa onde o conterrâneo Giuseppe Garibaldi vivia em Piratini. Este local também é tombado nacionalmente, desde 1941.
A cidade, de 226 anos, sofreu uma forte sentença após o fim da Revolução Farroupilha. Foi rebaixado à vila e só conseguiu retomar o status de município quase um século depois. Em 1839, os líderes da República Rio-Grandense   mudaram-se para Caçapava do Sul, já que perderam uma batalha contra imperialistas, no Sul do Estado. Em 1842, as tropas voltaram a Piratini, que sediou a capital praticamente até o fim do conflito.

Caçapava do Sul
Quem chega a Caçapava do Sul, pela BR 392, é recebido com um "Bem-vindo a 2ª Capital Farroupilha". Ao andar pelas ruas de pedras, é comum encontrar homens de bombacha, bota, lenço e camisa, mesmo sem ser Semana Farroupilha. Nesta data, então, as sete principais entidades tradicionalistas ficam com salões cheios de prendas e peões a bailar. Entretanto, esse orgulho termina por aí. O prédio mais emblemático do período, a Casa dos Ministérios, onde também era impresso o jornal O Povo, está em ruínas.
O jornalista e pesquisador, Euclides Torres, explica que a casa ministerial foi ali durante o auge da República. "Hoje está destruída, sem telhado, com uma cobertura de brasilite. São relíquias que a nossa geração está deixando acabar", sentencia. Ele conta que, entre os prédios que ainda existem na 2ª Capital Farroupilha, estão a casa onde o Bento Gonçalves morou e o túmulo do primeiro general Farrapo, João Manoel de Lima e Silva. Ambas estruturas estão desconfiguradas.
Torres afirma que houveram dois fatos que se sobressaíram enquanto a capital era em Caçapava do Sul, um de festa, outro de guerra. "Ainda em 1839, aconteceu a maior festa da Revolução, em comemoração da principal batalha vencida pelos farroupilhas, a Tomada de Rio Pardo, que fez 800 prisioneiros. Foi uma grande façanha militar. Os negros também comemoraram, com um baile chamado bambaquererê", detalha. O outro ato marcante na história, segundo o jornalista, envolve o general Lima e Silva. "Dois anos após a morte dele, o corpo foi exumado em São Borja e trazido para Caçapava do Sul, por ser um local dos farroupilhas. Foi uma epopéia. Alguns anos depois, os imperiais destruíram o túmulo e espalharam os ossos pela cidade", cita. Caçapava do Sul também foi onde teve a primeira Biblioteca Pública, a qual foi queimada pelos imperiais, que invadiram a cidade em 1840.
Torres decidiu se dedicar a estudar este período quando recebeu um exemplar do jornal O Povo. Esta dedicação resultou em dois livros publicados e um terceiro entregue à editora na última semana, sobre o controverso Bento Manuel Ribeiro de Almeida, considerado um dos traidores dos Farroupilhas. Ele morou e casou em Caçapava do Sul, assim como participou da Tomada de Caçapava.

Alegrete
E é do controverso Bento Manuel Ribeiro de Almeida a principal lembrança que resta na 3ª capital Farroupilha, Alegrete. O historiador e vice-coordenador da VI região Museológica do Sistema Estadual de Museus, Ânderson Romário Corrêa, conta que os prédios que pertenceram ao governo da República Rio-Grandense, no município, foram destruídos. "A cidade não preservou. Aqui existiu a Sede da Assembleia Legislativa, o Executivo, Exército e as residencias particulares dos farroupilhas. Nada foi preservado. O que existe é a casa do general Bento Manuel Ribeiro de Almeida, na Praça Getúlio Vargas, tombada pelo Patrimônio Histórico Municipal. Também existem algumas estâncias que foram dos Republicanos, assim como,existem as estâncias com as sedes preservadas, que foram dos Imperiais. São patrimônios particulares. Uma das explicações para o fato do município de Alegrete não ter preservado os prédios do período deve-se a influencia política da família de Bento Manoel Ribeiro de Almeida e seus aliados", relata.
O historiador revela que estudos recentes, como do pesquisador Edson Paniagua, indicam que a cidade não era a favor dos farroupilhas em sua totalidade. "O município explora e vende essa imagem em memória de ter sido sede da capital da República Rio-Grandense e de aqui ter sido escrita a Constituição. Mas era um reduto dos monarquistas com uma destacada influência de Bento Manuel Ribeiro de Almeida", analisa Corrêa. Segundo ele, em Alegrete, aconteceram desastres para os farrapos, como o assassinato do vice-presidente, as divergências e as denúncias de corrupção vieram à tona. Tais fatos foram pesquisados e descritos pelo jornalista Juremir Machado. Entre as novidades criadas na 3ª Capital estão a fundação de Uruguaiana e a criação da primeira loteria.

Bagé também é capital
Mesmo não tendo o título oficial de capital farroupilha, há documentos que comprovam que Bagé também foi tratada como tal. O primeiro a levantar essa hipótese foi o pesquisador bajeense Tarcísio Taborda, em seu livro Bagé e a Revolução Federalista, no qual ele traz reproduções de documentos da época, onde se foi redigido "Da capital de São Sebastião de Bagé".
Francine conta que existem outras cidades também consideradas capitais. "Durante algum tempo, provavelmente de agosto 1841 a abril de 1842, Bagé serviu como capital, onde repartições públicas foram abertas, documentos armazenados e até mesmo a tipografia do Jornal O Povo foi instalada. Bagé é uma das tantas capitais que não se oficializou, provavelmente foram mais de 11 ao todo, entre elas Rio Pardo, São Gabriel e Setembrina (Viamão)", enumera.
Torres também concorda. "Não há como não concordar que Bagé foi uma capital Farroupilha", afirma. Segundo ele, a República andava sobre carretas e a Rainha da Fronteira é uma capital tão válida quanto São Gabriel, onde o governo passou temporariamente.


Por: Fernanda Couto

 
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