Especial Farroupilha

sexta-feira, 18 de setembro de 2015 às 0:00

A paz construída em meio aos campos de Ponche Verde

  Em Dom Pedrito, município identificado pela pacificação, um obelisco referencia o tratado - Créditos: DIVULGAÇÃO
Em Dom Pedrito, município identificado pela pacificação, um obelisco referencia o tratadoDIVULGAÇÃO
  Faixas entregues às lideranças, em Bagé, estão no Museu Dom Diogo de Souza - Créditos: DIVULGAÇÃO

Bento Gonçalves não firmou a caneta para assinar o tratado que encerrou a Revolução Farroupilha, em fevereiro de 1845, nos campos de Ponche Verde, que hoje pertencem ao município de Dom Pedrito. A versão oficial da história sustenta que o próprio general iniciou as articulações pela paz, um ano antes. Mas o publicitário Raul Justino Ribeiro Moreira, tataraneto do líder republicano, acredita que o ilustre ancestral não concordava com os termos do acordo oferecidos pelo Império. "Ele prometeu a alforria. Não poderia trair a causa. Era uma cláusula pétrea", assegura.
O tratado de paz tinha 12 artigos. Ao concordar com o documento, os farrapos ganharam o direito de escolher o presidente da província. Os atos praticados durante a luta foram esquecidos. Não houve instauração de processos contra os republicanos. Os prisioneiros foram libertados e os desertores do Exército Imperial perdoados. Líderes Farroupilhas, a exemplo de Antônio de Souza Neto, tornariam a servir ao Império, em outras guerras, graças ao artigo 8º do acordo, que previa a admissão dos republicados em seus postos - a exceção dos generais.
Para Moreira, os republicanos não perderam a Revolução. "Quando ouço que o Rio Grande do Sul comemora uma guerra perdida, costumo responder que esta é uma tese dos imperiais que ainda vivem entre nós. Existiu um acordo, não houve um perdedor. Ainda não sei a quem interessa esta visão. Esquecem das coisas positivas e reduzem todo o movimento", avalia, ao destacar que pretende escrever um livro, revelando fatos desconsiderados pela história oficial.
O descendente de Bento Gonçalves está convencido de que os rio-grandenses conquistaram respeito através dos ideais que teriam sustentado a Revolução Farroupilha, o que, do seu ponto de vista, pode ser considerado um saldo positivo. "É importante destacar que não se tratava de um movimento deslocado na história. Ele estava, na verdade, conectado com o que acontecia no mundo, com as aspirações republicanas da América do Norte e da Europa, por exemplo", defende Moreira.
O acordo não privilegiou a perspectiva de demarcação da fronteira com o Uruguai e não alterou o sistema escravocrata, que manteve sua lógica inabalada em cidades da região. É difícil precisar as populações da época. De acordo com informações da Fundação de Economia e Estática do Rio Grande do Sul (FEE), os serviços estatísticos foram paralisados entre 1835 e 1845, em função da guerra. O trabalho só foi retomado em 1846, quando Bagé tinha 3.496 habitantes. A população de brancos totalizava 2.288, sendo a maioria mulheres (1.131) e de escravos, 1.208; a maioria homens (638). Havia apenas oito negros libertos um ano após a revolução (quatro mulheres e quatro homens).

Contexto adverso
Tarcísio Taborda defende a tese de que o movimento pela pacificação iniciou com a cisão entre os Farroupilhas, nascida de uma discórdia entre os líderes revoçucionários, a partir da Assembleia Constituinte de Alegrete, terceira capital. As negociações teriam sido desencadeadas em 1844, com diferentes tentativas de aproximação a Luís Alves de Lima e Silva, então barão de Caxias, presidente e comandante das armas da província. A última reunião neste sentido aconteceria em Bagé. No dia 20 de novembro, como registra o historiador no livro Bagé e a Revolução Farroupilha, lançado em 1985, o líder imperial escreveria ao Ministro da Guerra do Império relatando a situação e as aspirações dos republicanos para o término da luta armada.
Os Farroupilhas já não dispunham de bases de operações. Estavam, na prática, sem sede. A derrota no Cerro dos Porongos, atual território de Pinheiro Machado, no final de 1844, também contribuiria para o processo de pacificação. Após o confronto, Caxias seria recebido, em Bagé, pelos imperiais, que ansiavam comemorar uma vitória sobre David Canabarro, líder farrapo que ainda não havia sido derrotado. Questões políticas, atreladas às nações vizinhas, apimentaram as relações. O Exército Imperial tinha superioridade numérica, mas temia as intenções do ditador argentino Juan Manuel de Rosas, que ameaçava invadir o Brasil. O fim do conflito traria garantias e reforço militar ao governo estabelecido no Rio de Janeiro.
A paz, assinada em fevereiro, só foi proclamada no dia 1º de março, quando Bento Gonçalves, líder que não participou da assinatura do tratado, foi informado da nova condição. Ele recebeu instruções para dissolver a divisão que comandava. A comemoração ocorreu em Bagé, no dia 4 de março. Tarcísio afirma que Caxias e João da Silva Tavares aguardaram Gonçalves e Antônio de Souza Neto. A população teceu faixas bordadas com fios de prata e ouro, que foram oferecidas às lideranças. Duas delas foram entregues à igreja e, posteriormente, ao Museu Dom Diogo de Souza, onde estão até hoje.
O historiador Henrique Weiderspahn destaca que o tratado foi assinado, em Dom Pedrito, por generais, coronéis e majores republicanos. Não houve, portanto, a designação de um uma figura plenipotenciária, que tem plenos poderes para representar um país diplomaticamente. Ele afirma, com base em análise de instruções reservadas, endereçadas a Caxias, que o Império não poderia reconhecer a existência da República Rio-Grandense autônoma, pois considerava os Farroupilhas como rebeldes. O termo anistia, portanto, não aparece na redação oficial do acordo, por pressupor uma relação entre nações.
Na prática, porém, a anistia existiu, embora alguns líderes farrapos tenham preferido deixar o Estado, exilando-se voluntariamente no Uruguai, a exemplo de Bento Gonçalves, que mudou-se para Melo. Caxias conquistou prestígio com a condução do processo de pacificação. Seu nome seria elevado à condição de herói após a Guerra do Paraguai, em que lutaria ao lado de antigos adversários Farroupilhas.

Memória de pedra
Um obelisco de granito assinala o local em que o acordo foi firmado há 170 anos. O Monumento à Paz é reconhecido como estrutura de relevante interesse cultural para o Estado do Rio Grande do Sul. Para o município de Dom Pedrito, a peça de pedra que aponta para o céu oferece potencial econômico através da perspectiva turística.
O marco integra o Parque Farroupilha, instalação situada em uma propriedade do município, mantida com recursos da prefeitura. O conjunto dispõe de um galpão, que é usado para fandangos, e também uma churrasqueira externa coberta. "O local é utilizado pela Coordenadoria Municipal de Tradicionalismo, no mês de fevereiro, quando é realizada a festividade alusiva à Semana da Paz. Também acontecem, aleatoriamente, visitas de grupos", explica a assessora de turismo da cidade, Paula Oliva Bundt.
Dom Pedrito mantém outras relíquias associadas ao episódio histórico. O destaque fica por conta de uma escrivaninha que, de acordo com a tradição oral, teria sido utilizada para a assinatura do acordo. O móvel é preservado pelo Museu Paulo Firpo, também administrado pela prefeitura.
A luta, agora, é travada no sentido do aprimoramento da infraestrutura, que ainda representa um desafio para o desenvolvimento do turismo histórico na cidade. "Os pedritenses têm muito orgulho de ter, na sua terra, um marco tão importante para a história do Rio Grande do Sul. O que dificulta um pouco a valorização do local é a distância da sede, pois fica localizado a 40 quilômetros da cidade, sendo que destes, somente 15 quilômetros são asfaltados", avalia Paula.


Por: Sidimar Rostan

 
Pesquisar