Especial Farroupilha

quarta-feira, 16 de setembro de 2015 às 0:01

Duas famílias, duas ideologias e uma história

A rivalidade nos campos de batalha da Revolução Farroupilha e a camaradagem fora dele

Pelas veias de José Otávio, corre o sangue de dois generais farrapos - Créditos: Tiago Rolim de Moura
Pelas veias de José Otávio, corre o sangue de dois generais farraposTiago Rolim de Moura
Após dividir campos de batalha, Silva Tavares e General Netto têm túmulos vizinhos no Cemitério da Santa Casa - Créditos: Antônio RochaYara Maria cresceu ouvindo as histórias de batalhas de seus antepassados - Créditos: Tiago Rolim de Moura

Quando se encontraram em combate, no Seival, em 10 de setembro de 1836, o general farrapo Antônio de Souza Netto e o comandante das tropas imperiais, João da Silva Tavares, (Visconde de Serro Alegre), ainda não sabiam o impacto que o episódio teria, nem na guerra que travavam ou em suas vidas pessoais. Hoje o encontro é lembrado pelos descendentes das duas famílias, que mesmo com toda a rivalidade dos dois guerreiros em campo de batalha, nutrem relações cordiais fora dele.
Nascida e criada no Rio de Janeiro, Yara Maria Botelho Vieira sempre teve ligações com Bagé. Durante os três meses de férias, era pelas coxilhas dos campos da família materna que ela corria. Mas ainda na adolescência, chegou à região definitivamente e aqui construiu sua vida. Aos 75 anos, ainda guarda algumas histórias contadas pela avó, descendente direta de João da Silva Tavares. Eram as memórias de batalhas dos antepassados na Revolução Farroupilha e Revolução Federalista que embalavam as frias noites passadas na Estância do Limoeiro, herança deixada pelo ilustre ancestral.
A professora relembra uma destas histórias, que desmistifica um episódio da decisiva batalha do Seival. Ao que consta, Silva Tavares levava vantagem numérica sobre as tropas farroupilhas em mais de 70 homens. Entretanto, ao ver o furor com que os revoltosos se lançaram sobre os imperiais, teria se assustado e fugido, deixando para trás todo o pelotão, que, sem uma liderança, acabou dizimado pelos farrapos. Segundo Yara, o que se conta na família é uma história muito diferente. "O freio do cavalo arrebentou e o visconde perdeu o controle sobre o animal, que saiu em disparada e o levou para longe da batalha. Isso nós sabemos porque foi contado de geração em geração. Não teriam porque mentir".
Quem também conhece o episódio é José Otávio Gonçalves Netto, 77 anos. Por suas veias corre o sangue farrapo de dois grandes generais, Netto e Bento Gonçalves. Agrônomo por profissão e historiador por paixão, ele, assim como a professora Yara, teve a oportunidade de escutar desde cedo histórias sobre os antepassados, que viveram grande parte da vida em campos de batalha. Sobre o combate do Seival, hoje em terras do município de Candiota, ele tem uma opinião diferente. Sorri ao saber da versão contada por Yara. "Todas as pessoas que entendem de batalha e estratégias sabem que o general Netto estava em desvantagem. Isso era o que pensava também o Silva Tavares, que tinha um número superior de soldados e uma posição fácil de defender. Mas ele não imaginou que o Netto atacaria como um louco, como ele fez", conta.

Rivalidade
Quando o assunto é rivalidade, os dois têm a mesma opinião: ela se limitou aos campos de batalha. As duas famílias permaneceram em Bagé, dois clãs com diferentes ideais, mas vivendo na mesma cidade, e sempre com respeito.
Yara relembra que Silva Tavares tinha relações estreitas com os comandantes farrapos antes da revolução estourar. Ele era, inclusive, padrinho de um dos filhos de Bento Gonçalves. Mas, mesmo tendo a oportunidade de se reunir aos revoltosos, escolheu lutar por ideais diferentes dos amigos. "As ideias eram contrárias, mas ambos eram homens de brio, de palavra. Eles respeitavam os outros e se faziam respeitar", comenta.
Já José Otávio destaca esse respeito mútuo através de um episódio. Após uma batalha, o filho de Silva Tavares foi feito prisioneiro pelo general Netto. Na época, ele contava 15 anos. E o menino foi liberado da mesma forma que foi preso: vivo e ileso. "Depois de preso, queriam matar o guri. E o Netto não deixou, disse que não ia matar um menino e mandou um soldado de confiança entregá-lo ao pai dele. Eles se respeitavam, mas ideologicamente eram adversários", diz.
Yara recorda que conheceu o herdeiro do adversário de seus antepassados através de uma paixão em comum: a história. Os dois fazem parte do Núcleo de Pesquisas Históricas Tarcísio Taborda (NPHTT), onde a Revolução Farroupilha e seus reflexos na região são alguns dos temas estudados. Na ocasião, o antagonismo foi deixado de lado e surgiu uma camaradagem entre os dois representantes das famílias. "Essa rivalidade só existiu no século 19. Depois deixou de existir em nossas famílias. Nossas relações com os descendentes são as melhores possíveis", diz Yara.
Ela atribui ao patriotismo e à Língua Portuguesa a união entre, não só as duas famílias, mas também de todo um povo. "A rivalidade foi deixada de lado pela sensação de pátria, que é indivisível. E a nossa língua, que une o Brasil de Norte a Sul, mesmo em um país de dimensões continentais, como é o nosso", opina.

Netto: dúvidas sobre as origens
Antônio de Souza Netto alcançou o ápice de sua carreira na Revolução Farroupilha. Um dia após a batalha do Seival, em que obteve uma vitória surpreendente sobre os imperiais, alçou-se ao patamar de herói. Aos 35 anos, foi o responsável por proclamar a República Rio-Grandense, mesmo contrariado por não ter o aval de seu amigo e comandante, Bento Gonçalves.
Guerreiro e estrategista cuidadoso, ainda hoje é lembrado como um dos principais nomes da revolução. Sua fama alcançou outros países, especialmente na América Latina, onde envolveu-se também na Guerra do Paraguai e travou sua batalha final, em Corrientes, na Argentina.
Apesar da sua morte ter sido documentada, seu local de nascimento já foi questionado. A versão oficial conta que o herói nasceu na estância de seu pai, em Capão Seco, Rio Grande, em 1803. Entretanto, a versão oficial é questionável, segundo José Otávio. Ele comenta que há fortes indícios que levam a crer que o general nasceu em Bagé, no chamado Passo do Netto, próximo ao Rio Jaguarão, hoje pertencente ao município de Hulha Negra.
José Otávio comenta que o pai do general, José de Souza Netto, chegou à região quando essas áreas ainda estavam sob dominação espanhola. Recebeu lotes como sesmaria e por aqui se assentou. Entretanto, todos os filhos foram registrados em Rio Grande, município fundado em 1737. À época do centenário de nascimento do herói, em 2003, José Otávio escreveu um artigo para o extinto Correio do Sul, onde falou sobre essa questão, que lançava dúvidas sobre a origem de Netto. Alguns moradores de Rio Grande tiveram acesso ao texto e se posicionaram veementemente contrários à hipótese da origem bajeense do general. "O pessoal ficou nervoso. Mas foi isso que aconteceu, ele foi registrado em Rio Grande, mas nasceu aqui. Ainda hoje tem uma placa, que marca o local da fazenda do pai dele", finaliza.
Após sua morte, na Argentina, Netto foi sepultado em Montevidéu, onde a família também era proprietária de terras. No final da década de 1930, o advogado bajeense Arnaldo Faria encabeçou o primeiro movimento para trazer os restos mortais do herói para Bagé. À época, consultou a herdeira, Maria, que respondeu em carta. "Nada mais justo que os restos mortais de meu pai retornarem ao seu torrão natal".
Segundo José Otávio, essa carta foi doada ao Museu Dom Diogo de Souza. Entretanto, de acordo com a coordenadora da Comissão Gestora de Museus, Maria Luísa Pêgas, e a professora Élida Hernandes Garcia, o documento não está no local. A carta de Maria foi reproduzida no livro "Histórias de Bagé", do pesquisador Eurico Jacintho Salis, que data de 1955.
O translado dos restos mortais só viria a ocorrer décadas depois, em 1966, no centenário de morte do herói, onde já demonstrara desejo de ser enterrado. Os restos mortais foram trazidos de Montevidéu e agora jaz em um mausoléu no Cemitério da Santa Casa de Bagé, onde o próprio general ordenou a construção de sua última morada. "Uns oito anos antes de morrer, ele havia construído esse mausoléu. Mas só foi enterrado no local que escolheu cem anos depois", conta José Otávio. No cemitério, também foi sepultado Silva Tavares.


Por: Melissa Louçan

 
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