Especial Farroupilha

terça-feira, 15 de setembro de 2015 às 0:00

Um país nascido nos campos de Candiota

Marco foi colocado no lugar do combate - Créditos: Tiago Rolim de Moura
Marco foi colocado no lugar do combateTiago Rolim de Moura
Ferreira está buscando o local exato onde foram enterrados os combatentes - Créditos: Tiago Rolim de Moura

O combate do Seival, travado entre as forças do coronel Farroupilha Antônio de Souza Netto e as tropas do coronel Imperialista João da Silva Tavares, no dia 10 de setembro de 1836, redesenhou o mapa da América do Sul. Com a vitória no território que hoje se encontram no município de Candiota, Netto marcharia para o Campo dos Menezes, e, no dia seguinte, proclama a independência do Rio Grande do Sul, sob a forma republicana.
A batalha opôs dois militares de biografias reconhecidas. Netto havia sido comandante de legião da Guarda Nacional de Bagé. Junto com José Neto, Pedro Marques e Ismael Soares da Silva, havia organizado o corpo de cavalaria Farroupilha. Após a proclamação, seria general da primeira brigada do exército liberal republicano. Silva Tavares foi comandante de companhia e de distrito, juiz de paz, deputado provincial e comandante militar da fronteira de Jaguarão, em substituição a Bento Gonçalves.
O local do combate que mudou os rumos da Revolução fica próximo à margem esquerda do Rio Jaguarão, na rodovia 293, no sentido Bagé-Pelotas, onde um monumento foi erguido para relembrar o embate. Conforme o presidente do Núcleo de Pesquisas Históricas de Seival, Heitor Ferreira, no dia 9 de setembro, os Farrapos estavam reunidos na margem do Jaguarão e os Imperiais próximos à margem do arroio Candiota. Estima-se que entre as duas tropas havia cerca de 900 homens, mas o grupo imperial tinha melhores animais e armas para o combate.
Ferreira explica que o coronel legalista havia se refugiado no Uruguai, após ter sofrido ataques isolados, voltando à Província em setembro de 1836, no comando de uma força com mais de 500 homens, a maior parte recrutada entre rio-grandenses que viviam em solo uruguaio. Bem armado e confiante, Tavares provocou os Farroupilhas, ao passar pela região de Bagé, território guarnecido pela tropa de Netto, formada por pouco mais de 400 soldados, muitos deles uruguaios. No dia 10 de setembro, os dois exércitos se encontraram às margens do Arroio Seival. Apesar da inferioridade numérica, os rebeldes atacaram com espadas e lanças e levaram vantagem sobre a força legalista. Tavares teve uma perna ferida, mas o pior aconteceu com seus soldados: 185 mortos, 60 feridos e cerca de 20 presos. As perdas farroupilhas foram mínimas.
O pesquisador conta que Tavares escolheu o melhor lugar para a batalha, um território que favoreceria sua tropa, enquanto Netto atravessou em um lugar impróprio. Ao que tudo indica, os imperiais teriam ampla vantagem, mas segundo as pesquisas, um fato principal teria favorecido os Farrapos. Ferreira observa que existem registros de que o cavalo de Tavares teria disparado, por ter o freio arrebentado. A corrida teria sido interpretada como fuga entre seus subordinados, o que causou confusão. Os homens de Netto aproveitaram o momento a seu favor, redobrando o ímpeto das cargas. Derrotado, o líder imperialista levou o que sobrou da tropa para a região do Rio Camaquã.

Uma República no pampa
Netto proclamou a República Rio-Grandense no dia 11 de setembro de 1836. O local exato, segundo as pesquisas do Núcleo de Seival, seria um pouco abaixo do Passo do Lajeado. Ferreira destaca que há um marco da proclamação também situado às margens da BR 293. O pesquisador agora estuda a identificação de novos indícios dos combates. Ele salienta que houveram vários confrontos na região, que configurava uma rota de fuga para o Uruguai. "A busca é pelo local exato onde foram enterrados os mortos da batalha", explica.
A República, simbolicamente representada pela bandeira e pelo brasão do Estado do Rio Grande do Sul, teve pelo menos três capitais. Os Farroupilhas separaram-se completamente da corte. Jaguarão e Piratini aprovaram a independência e a instituição do governo republicano; procedendo-se, na sequência, a eleição de Bento Gonçalves para a presidência. Uma corrente de pesquisa sustenta que o objetivo principal nunca foi proclamar um estado-nação, mas mostrar ao Império do Brasil que os rio-grandenses não estavam satisfeitos com os altos impostos.
Em 22 de junho de 1838, o movimento nomeou um vigário apostólico, negando obediência ao bispo do Rio de Janeiro, criando, assim, um cisma na Igreja Católica da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. O vigário apostólico tinha verdadeira autoridade religiosa: crismava, ordenava padres e dava dispensas matrimoniais. A República foi encerrada em 1845, com o tratado de paz assinado em Dom Pedrito. Passados quase 180 anos, os descendentes dos dois líderes que rivalizaram no Seival convivem pacificamente em Bagé.


Por: Jaqueline Muza

 
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