Especial Farroupilha

segunda-feira, 14 de setembro de 2015 às 0:00

A Revolução Farroupilha e suas versões

Militares, pesquisadores e a história têm detalhes importantes

A única bandeira da revolução dos farrapos está em Bagé, no Museu Dom Diogo de Souza - Créditos: Reprodução
A única bandeira da revolução dos farrapos está em Bagé, no Museu Dom Diogo de SouzaReprodução
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Os gaúchos aprenderam na escola que a Revolução Farroupilha foi a mais longa revolta brasileira. Durou 10 anos (1835 a 1845). Os problemas econômicos das classes dominantes estariam entre as principais causas da guerra. No entanto, os motivos e o desenrolar desse importante feito histórico têm versões distintas, mais detalhadas e, até mesmo, controversas daquelas que estamos acostumados a escutar.
Sabemos que o Rio Grande do Sul tinha uma economia baseada na criação de gado e vivia, sobretudo, da produção do charque que era vendido em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e na região nordeste. De acordo com o advogado e historiador Cláudio Lemieszeck, os produtores gaúchos (donos de estâncias), reclamavam do governo do Império contra a concorrência que sofriam do Uruguai e da Argentina, países que também produziam e vendiam charque para as províncias brasileiras, mas com impostos de importação mais baixos, o que estaria arruinando a economia gaúcha.
Em 20 de setembro de 1835, os farroupilhas atacaram e tomaram Porto Alegre. Depois da proclamação, no ano de 1936, em Seival, hoje território de Candiota, o coronel Bento Gonçalves da Silva, foi escolhido presidente da República Rio-Grandense. Os revolucionários esperavam que seu exemplo fosse seguido pelas outras províncias, provocando assim a queda do regime imperial. Em uma das primeiras lutas após a proclamação, o general Bento Manuel Ribeiro, uma das figuras mais polêmicas da Revolução (que começou ao lado dos farroupilhas, passou a apoiar o Império, voltou para os farrapos e terminou defendendo o Império), conseguiu derrotar os farrapos na batalha da Ilha do Fanfa, no atual município de Triunfo. O acordo para rendição foi descumprido. Bento Gonçalves acabou preso e foi levado para a Bahia.
O chefe da República Rio-Grandense escaparia do cárcere no Forte do Mar, hoje denominado de Forte de São Marcelo, com a ajuda dos apoiadores do médico e jornalista Francisco Sabino Vieira, que, em 1937, proclamaria a República Baiana. Bento Gonçalves retornou, então, à luta no Rio Grande do Sul. Os farroupilhas não haviam desanimado com os reveses sofridos e, no fim de 1838, dominavam quase todo o Estado, exceto Porto Alegre e o litoral gaúcho. "Os habitantes dessas regiões eram plantadores de trigo ou marinheiros e não tinham os mesmos interesses que os criadores de gado, preferindo apoiar o governo regencial", observa Lemieszeck.
Em 1840, Dom Pedro II foi proclamado maior de idade, assumindo então a Chefia do Estado. Um de seus primeiros atos foi conceder anistia, isto é, perdão a todos os revoltosos que depusessem as armas. Os farrapos, no entanto, não aceitaram o perdão do Imperador e preferiram prosseguir na luta. Poucos anos depois, já enfraquecidos após tantas batalhas, aceitaram a proposta de paz. Sendo assim, em 1° de março de 1845, foi concedida ampla anistia a todos os revolucionários. Os militares do Exército Republicano foram aceitos pelo Exército Imperial, conservando os postos que haviam alcançado durante a guerra. O general David Canabarro entregou 120 soldados negros para serem levados para a Real Fazenda de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, inicialmente como escravos estatizados. Mais tarde, o Barão de Caxias, concedeu-lhes a alforria antes prometida. Graças a essas medidas, a paz voltou ao Rio Grande do Sul.

A controvérsia
O historiador Moacyr Flores, estudioso sobre a Revolução Farroupilha e autor de diversos livros sobre o tema, frutos de suas pesquisas de mestrado e doutorado nessa área, contesta a versão que conhecemos. Ele considera a Revolução Farroupilha como uma guerra civil, já que colocou os rio-grandenses uns contra os outros. "O Império, que já cobrava impostos das propriedades urbanas, decidiu cobrar impostos sobre as propriedades da zona rural. A população de Porto Alegre foi a favor da cobrança porque pequenos proprietários da capital eram taxados. E por que não os grandes estancieiros?", questiona o pesquisador.
Com a tomada do poder, liderados por Bento Gonçalves, começa um período inédito nas revoltas brasileiras, já que, pela primeira vez, os rebeldes conseguem implantar uma República. "Não houve, no entanto, aplicação de ideias liberais ou tentativa de qualquer mudança social. Esse governo se caracterizou como uma ditadura, reprimindo duramente qualquer opinião contrária", diz Flores. Outro engano, segundo ele, é achar que os negros lutaram pelos farroupilhas em favor da conquista de sua liberdade. "Não houve negros do lado dos estancieiros, pois estes não colocaram seus escravos para batalhar, sempre os mantiveram em trabalho nas fazendas. Os negros que participaram estavam do lado do Império e eram da chamada Infantaria Negra", afirma. O pesquisador avalia que parte do 'fracasso' da república farroupilha se deu pela não aceitação por parte da população do Rio Grande do Sul. "Porto Alegre já era uma cidade comercial, então é claro que ninguém apoiava uma guerra, pois sempre há pilhagens e muito prejuízo para todos", explica o pesquisador.

Os detalhes do Exército
A Revolução Farroupilha foi a segunda maior revolta do Exército Imperial, em aliança com a Guarda Nacional e forças econômicas (fazendeiros e charqueadores), como protesto pelas discriminações feitas ao Exército e seus membros.
A tomada e posse de Porto Alegre pelos revolucionários fez com que as primeiras lideranças militares contra a revolução fossem neutralizadas ou obrigadas a imigrar. O presidente da Província, deposto, estava no Rio de Janeiro e todo o Rio Grande do Sul ficou em poder dos revolucionários. Ao retornar da República do Uruguai, brigas entre o presidente da Província, Brigadeiro Antero Ferreira Brito, e o Comandante das Armas, coronel Bento Manoel Ribeiro, terminaram modificando o curso da revolução. O presidente saiu de Porto Alegre para prender e destituir o Comandante das Armas. Mas este se antecipou e prendeu o presidente. Assim, Bento Manoel, pela segunda e última vez, passou para o lado republicano.
O ano de 1839 terminou para os republicanos com derrota naval em Laguna. O grande endividamento interno e externo da República abalou seu crédito nesta época, com reflexos negativos no apoio logístico à guerra e na unidade do movimento. Surgiram as primeiras gestões visando à pacificação, momento que coincidiu com a maioridade de Dom Pedro II. Quando iniciaram as negociações de paz, os farrapos reconheciam a precariedade de sua situação, confinados a uma área quase sem recursos, sem disporem de nenhuma vila ou povoado com base de suas operações, ou para servir de sede ao que restava do governo e da administração civil, vagando sem destino e procurando evitar confrontos. Dom Pedro II decidiu ainda terminar a guerra nas condições propostas pelos farroupilhas, basicamente estruturadas por Bento Gonçalves.

Tradição que se mantém
"O apreço por suas tradições destaca o Rio Grande do Sul do resto do País", afirmou o ator Thiago Lacerda, ao participar do desfile Farroupilha em Bagé, em 2008. Essa é a visão de quem não mora no Rio Grande do Sul e certamente é a realidade de quem nasceu e vive aqui.
Mesmo que a identidade do Rio Grande do Sul tenha sido criada oficialmente muitos anos após a tomada de Porto Alegre pelos farroupilhas, e que eles não tenham alcançado seus objetivos, o orgulho de cultivar as tradições é o maior diferencial dos gaúchos. Hino, bandeira, bombacha e cavalo são a identidade de quem nasce por aqui. E foi em 1947, com a finalidade de preservar as tradições gaúchas, mas também de desenvolver e proporcionar uma revitalização da cultura rio-grandense, que jovens estudantes oriundos do meio rural, de todas as classes sociais, liderados por Paixão Cortes, criaram um Departamento de Tradições Gaúchas, no Colégio Júlio de Castilhos, na capital.
De lá para cá, a figura do gaúcho, suas vestimentas e lidas no campo, têm cada vez mais força. "E esse orgulho de ser gaúcho atravessa gerações. E a cada nova geração ele se renovará", avalia Lemieszeck.


Por: Dora Beledo

 
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