Arte e Cultura

sexta-feira, 21 de agosto de 2015 às 0:41

O Massacre do Rio Negro

Uma das mais surpreendentes e chocantes narrativas sobre o Rio Grande do Sul durante a Revolução Federalista de 1893 foi reproduzida por Décio Freitas em seu livro O Homem que Inventou a Ditadura no Brasil (Editora Sulina, 2000).

Ilustração - Créditos: Falcão
IlustraçãoFalcão
O então Coronel João Nunes da Silva Tavares, conhecido como Joca Tavares (terceiro sentado, da direita para a esquerda) e seus auxiliares imediatos, .. - Créditos: ReproduçãoTrincheira  - Créditos: ReproduçãoAmbrose Bierce - Créditos: ReproduçãoSoldados rebeldes - Créditos: Reprodução

O massacre do Rio Negro

Uma das mais surpreendentes e chocantes narrativas sobre o Rio Grande do Sul durante a Revolução Federalista de 1893 foi reproduzida por Décio Freitas em seu livro O Homem que Inventou a Ditadura no Brasil (Editora Sulina, 2000). A narrativa original foi escrita pelo jornalista norte-americano Ambrose Bierce, correspondente do Tribune, de Nova York.
Mas há quem duvide.
Alguns historiadores, literários e tradicionalistas gaúchos consideram que o livro se encontra entre a história e a ficção. O principal motivo para a dúvida é que Freitas ao pesquisar matérias sobre o conflito em jornais platinos, encontrou, transcrito para o espanhol, no La Prensa, de Buenos Aires, um artigo de um certo A. Bierce, que poderia ou não ser o jornalista dos Estados Unidos, pois não há registros em sua biografia dessa viagem ao Sul do Brasil.
No entanto, o historiador gaúcho foi à biblioteca de Nova York vasculhar a coleção do Tribune e os mais de 60 cadernos que Bierce escreveu sobre a guerra civil ocorrida no Rio Grande do Sul de 1893 a 1895.
Há também quem proteste quanto ao gaúcho e o Rio Grande "pintado" pelo norte-americano, mas aí já é outro debate.
Vale destacar que a biografia do jornalista não anula a possibilidade de que o "A" seja de Ambrose, porque ele esteve na Guerra da Secessão americana, tornou-se correspondente em Londres e, em 1913, desapareceu misteriosamente durante a Revolução Mexicana. Ou seja, é mais difícil provar o contrário, que ele não seja o Bierce "famoso", o apelidado "bitter" (amargo) da imprensa no final do século XIX.  Um homem inquieto em seu tempo.

No livro, Freitas reproduz o que Bierce observou no Rio Grande do Sul, principalmente em Porto Alegre e Bagé, quando aqui esteve para conhecer de perto o lugar do massacre do Rio Negro, ocasião em que os rebeldes degolaram, talvez, três centenas de apoiadores da política de Júlio de Castilhos, governador do Estado.

Nas páginas a seguir, o Caderno de Cultura do Jornal MINUANO faz um apanhado das impressões que A. Bierce enviou para o Tribune de Nova York, com as devidas emendas e literatura de Décio Freitas, além de um ou outro rabiscar do editor deste caderno, que começa a narrativa com os primeiros movimentos da Revolução de 93, preparando o cenário para mostrar a Bagé em guerra, a Bagé selvagem e desleixada, que acabaria por permitir as atrocidades da degola no, hoje, município de Hulha Negra.

Este suplemento de cultura existe no Jornal MINUANO porque tem o apoio da Urcamp.

 

Relatos do tempo das degolas, seus mandos e desmandos

Extraído do livro O Homem que Inventou a Ditadura no Brasil

Entre Porto Alegre e a vila uruguaia de Melo, o jornalista Bierce viajou infindáveis horas sem ver uma casa, uma árvore, uma roça. Apenas, de tanto em tanto, em imensos espaços nus e vazios, algumas vacas pastavam. Era inverossímil e irracional que aquela gente lutasse, matasse e morresse, obstinadamente, para obter terras que tinham depois escasso aproveitamento econômico. (...)

No departamento de Cerro Largo, onde se situa Melo, cerca de 70% das propriedades rurais pertenciam a sul-rio-grandense, entre os quais Gaspar Silveira Martins, que ali nascera.
No centro de Melo, numa enorme construção quadrada, instalou-se o comitê militar dos rebeldes, aqueles contra o governo estabelecido no Rio Grande do Sul.
Num grande salão, os principais caudilhos discutiam enquanto tomavam mate.
Todos, sem exceção, ostentavam barbas compridas, mal cortadas. Usavam bombachas - calças muito largas, apertadas acima dos tornozelos, por meio de botões. Indumentária que teria sido trazida da Espanha, de uma região conhecida como Maragataria (daí surgiu o maragato). A indumentária tradicional, o chiripa - peça quadrilonga de fazenda encarnada, sem costura, passando por entre as pernas e apertada à cintura em suas extremidades por uma cinta de couro -, era ainda usada por peões de estâncias e pela maioria dos subalternos dos caudilhos.
Estes calçavam botas de couro de potro. Traziam, presas às botas, esporas chamadas chilenas, com rosetas pontiagudas barulhentas ao arrastar no chão. Apesar do calor, alguns usavam o abrigo chamado poncho, uma espécie de grande manto de algodão listrado, lançado sobre o ombro esquerdo. Outros usavam um manto mais leve, de seda, chamado pala. Empunhavam chicotes curtos, os rebenques. (...)
Misturado com os caudilhos via-se o general Joca Tavares, já escolhido para comandante-em-chefe das forças rebeldes. Bierce espantou-se ao vê-lo. Era um homem talvez beirando os oitenta anos. Lutou na Guerra dos Farrapos e na Guerra do Paraguai. Era republicano e, praticamente, dono do município de Bagé. (...)
A única coisa que unia os caudilhos era o ódio comum a Júlio de Castilhos.
Queriam uns a monarquia de volta; outros, a república; muitos, a secessão. Havia um descontentamento com Silveira Martins, que não se definia entre a monarquia e a república, nem tomava posição sobre o separatismo, e até vacilava em apoiar a rebelião.
Uns e outros contribuíam com dinheiro para o comitê revolucionário e, quando não o tinham, colocavam seus títulos de propriedade à disposição.

Não havia como distinguir um uruguaio de um sul-rio-grandense. Falavam o mesmo calão luso-castelhano e usavam a mesma indumentária.
A população uruguaia fronteiriça simpatizava com os rebeldes.
Em Montevidéu e Melo, discutia-se acaloradamente a data da invasão do Rio Grande do Sul. Para isso, os revolucionários somavam em torno de cinco mil homens.
O receio era que num acordo de governos, o presidente do Estado gaúcho, Júlio de Castilhos, conseguisse fazer o Uruguai fechar a fronteira.

As vantagens militares e financeiras do governo do Rio Grande, graças à ajuda federal, tornavam, aparentemente, inúteis os esforços e trágicas as consequências. (...)
Os federalistas, rebeldes por afrontar um governo estabelecido, tinham a seu favor a imensa fronteira, que desafiava qualquer bloqueio, uma fantástica tradição militar e uma dissimulada simpatia dos países do Prata, principalmente o Uruguai.
Para haver paz era preciso que a Constituição e, por consequência, a ditadura de Júlio de Castilhos fosse suprimida. Para vencer a guerra, os rebeldes teriam de defender o território da fronteira e fazer o governo cansar das batalhas. Uma das táticas para alcançar esse objetivo era a guerra de guerrilhas, que sempre foi essencialmente uma guerra de nervos, que exercia um efeito deletério sobre o moral das forças regulares inimigas. Resume-se à frase: golpeie e fuja. "A estratégia é cansar o inimigo, vencê-lo pelo desânimo de uma luta sem tréguas, de marchas e contramarchas", justificou Silveira Martins ao jornalista Bierce.

 

O massacre

No início de fevereiro de 1893, Gumercindo Saraiva invadiu o Rio Grande do Sul com mais ou menos 500 homens. Em seguida, o general Joca Tavares fez o mesmo, com cerca de três mil soldados. Depois outros grupos repetiram o feito, saindo do Uruguai e também da Argentina.
Travavam-se combates isolados, de resultado incerto. Vilas e cidades eram ocupadas, mas logo tinham de ser abandonadas, trocando de mando.
Em dezembro daquele ano do início do conflito, o jornalista A. Bierce viajou para Bagé, motivado por um massacre cometido na localidade de Rio Negro. A notícia chegou a ele através do jornal La Prensa, de Buenos Aires.
Segundo a notícia, houve encarniçado combate entre legalistas e rebeldes na estação ferroviária de Rio Negro, distante cerca de vinte quilômetros da cidade de Bagé. Vitoriosos, os rebeldes haviam degolado mais de setecentos prisioneiros legalistas. Era o que anunciava o jornal argentino.
Não esclarecia a notícia como se dera o massacre. Dois dias depois, recebia Bierce despacho telegráfico de seu editor em Nova York, pedindo reportagem sobre "o massacre de mais de três mil prisioneiros, degolados na povoação de Rio Negro (Hulha Negra)".
A informação deveria ter chegado a Nova York, segundo constatou, através de diplomatas norte-americanos no Rio de Janeiro ou nas capitais platinas.
Obteve salvo conduto de Gaspar Silveira Martins, que declarou ignorar o massacre.
No dia 14 de dezembro de 1893, chegou a Rio Negro depois de uma viagem que o jornalista registrou como "acidentada e desgastante". (...)

E escreveu:
Rio Negro é um lugar incrivelmente desolado, distante cerca de 20 quilômetros da estratégica cidade fronteiriça de Bagé. O povoado se constitui de uma pequena estação ferroviária semidestruída pelos combates e duas dúzias de casas, se é que assim se pode denominar precários e miseráveis ranchos.
Os moradores fugiram e as casas são agora ocupadas por soldados rebeldes e suas mulheres. Os soldados pertencem a um contingente comandado pelo major negro Adão Latorre. Estão maltrapilhos, cheios de piolhos e, claramente, famintos. Alguns trazem vendas ensanguentadas nos rostos e nos braços. As mulheres são muito moças, quase crianças, mas atarracadas e feias. Vestem esfarrapados vestidos de chita. Têm as mãos sujas, sebentas, de unhas lascadas.
Contei duas dezenas de cadáveres de homens degolados e duas mulheres mortas a tiros. Alguns cadáveres apodrecem, juntamente com cavalos destripados, sob o sol abrasador. Outros são comidos por bandos de cães e corvos. Vi alguns crânios dispersos pela terra. Todos os cadáveres, ou o que resta deles, jazem completamente nus, pois os soldados costumam despir os mortos, a fim de vestir ou vender suas roupas, mesmo ensanguentadas.
(...) Tudo tresanda a morte e podridão, provocando uma náusea desesperadora. Reprimo a vontade de vomitar. E me pergunto: por que não enterraram os cadáveres?
Alguns soldados, de cócoras, jogam dados. Outros sorvem o mate, tranquilamente.
Tento, em vão, obter informações. Pergunto por que lutam, e eles respondem que é bom lutar, que não precisam trabalhar, que devem matar a gente de Júlio de Castilhos, que assim conseguem mulheres.
Quando pergunto sobre a chacina, encerram a conversa e se fecham num silêncio hostil. As mulheres são mais loquazes. Elas antes viviam em ranchos nas estâncias, e haviam sido arrebanhadas pelos soldados. Dizem que agora eles são seus homens. Mas não querem falar sobre a chacina.
Um vento forte traz um redobrado cheiro de carniça.
Por uma trilha encontro, à pequena distância, um mato cerrado e, atrás do mato, uma lagoa. Ela transborda impetuosa e cobre banhados. No lugar, há lebres, perdigões, raposas. Dentro da lagoa, veem-se bandos de garças paradas e fixas como estátuas. Exala-se da lagoa o mesmo odor gordo de carniça humana, o que faz presumir que ali foram jogados os cadáveres.
Nisso, diviso uma mangueira de pedra, nome que se dá aqui a um curral muito grande. Mas não vejo nenhuma casa de estância.
Há uma espantosa quantidade de sangue seco nas proximidades da porteira da mangueira: grossas camadas de sangue ressequido nas pedras, no madeirame e no chão de terra. (...)

Antecedentes da chacina

Em outubro de 93, o comandante das forças legais na região, general Isidoro Fernandes de Oliveira, resolveu guarnecer pontos da fronteira, incluindo a estação ferroviária de Rio Negro.
Joca Tavares, emigrado no Uruguai, é informado que o governo daquele país mandara prendê-lo. Então, passa para o Brasil.
Um exército, organizado pelo irmão de Joca Tavares, marcha para a estação de Rio Negro, na primeira quinzena de novembro.
Outras colunas de rebeldes convergiram para o local, cercando os legalistas, que estavam em número de mil. Eles lutaram contra, talvez, três mil.
Os rebeldes cortaram o acesso dos legalistas à água do rio.
O combate durou dois dias. Sem munição, desesperados pela sede, cercados de cadáveres de homens, mulheres e cavalos, os sitiados ergueram a bandeira branca.
A rendição ocorreria se os rebeldes garantissem suas vidas, o que foi aceito pelo general Joca Tavares. Entre os prisioneiros estava o general Isidoro, seu estado maior e centenas de soldados. "Asseguraram-me que o general era um alcoolista inveterado e se mantivera bêbado durante todo o combate", destacou Bierce em seu relato.
Depois da rendição, o general Joca Tavares se retirou com o grosso das tropas para iniciar o cerco de Bagé, deixando a posição a cargo de um coronel seu irmão e do major Adão Latorre. (...)
A degola de inimigos pessoais ou de prisioneiros é prática muito comum na Argentina, no Uruguai e no Rio Grande do Sul. A execução de prisioneiros é, em si mesma, uma covardia, mas a degola é uma demonstração de repulsiva crueldade.
Cavalgo até uma pulperia, distante um quilômetro e meio de Rio Negro. Pulperia, palavra espanhola que designa uma pequena casa de negócios, é onde se vende tudo, desde gêneros alimentícios até aguardente. Os homens do campo costumam se reunir nas pulperias para conversar, jogar cartas, beber e, às vezes, quando embriagados, matarem-se, em duelos de arma branca.
Os donos das pulperias sabem tudo o que se passa no mundo.
Recorri a esta fonte de informações. Um judeu de meia idade e língua solta.
- Sim, conta ele, muitos prisioneiros foram degolados. Encerrados na mangueira de pedra, à medida que saíam pela porteira, recebiam o fatal golpe de faca, que os matava rapidamente. Cambaleavam alguns segundos e caiam.

A matança começara pouco depois do meio-dia e prosseguira toda a noite, até o amanhecer do dia seguinte.

Quantos homens foram degolados?
Não se sabia ao certo. Falava-se em 300 a 400.
As degolas haviam sido praticadas pelos homens de um piquete comandado pelo major negro Adão Latorre, veterano de revoluções uruguaias. Antes da revolução federalista, Latorre era capataz nas propriedades da família Tavares. Não só organizara e dirigira o massacre, como havia, ele próprio, degolado muitos prisioneiros.

E Latorre recebeu ordem do general Joca Tavares para efetuar as degolas?
O bolicheiro dá uma gargalhada. Como se tivesse ouvido uma coisa muito engraçada.
- Então, Adão Latorre fazia alguma coisa sem ordem ou permissão do general Joca Tavares?

Os degolados eram quase todos correntinos, da província argentina de Corrientes, na fronteira com o Brasil.
Disse o judeu que antes da execução Latorre fazia as vítimas se despirem a fim de vender as roupas aos mascates, depois mandava os homens dizerem "pão" e se revelassem sotaque castelhano, dizendo "pon", sofriam a degola.
- Perdão, acrescentou o dono da pulperia, esqueci que também um brasileiro foi degolado, o coronel Manuel Pedroso. Uma vingança. Porque meses antes, Pedroso, como agente do governo, entrou numa das estâncias de Joca Tavares arrasando tudo o que encontrou pela frente, degolando um capataz e seis peões, matando vacas e ovelhas.

Vingança ou legítima defesa?

Quando o jornalista norte-americano chegou ao centro urbano de Bagé, o general Joca Tavares, com mais de três mil homens, mantinha a cidade sitiada. E era defendida por uma guarnição de cerca de mil homens, comandados pelo coronel Carlos Telles, das forças legalistas.
Cidade de pouco mais de oito mil habitantes, Bagé tem como principais construções a Casa de Caridade, a Beneficência Portuguesa, a Beneficência Italiana, a Intendência, o quartel da tropa de linha, a Igreja Matriz e uma bonita estação ferroviária, um espaço de mais ou menos mil metros quadrados.
Cavaram-se trincheiras nas bocas das oito ruas que dão na praça.

A defesa é constituída por seis batalhões de infantaria, um regimento de artilharia de campanha, três regimentos de cavalaria, um corpo de transportes e contingentes de civis. A praça está perfeitamente artilhada e protegida por metralhadoras.

Os rebeldes cercaram completamente a cidade, sem deixar uma única saída.
Ocupam o mercado público, o teatro, o hospital, os quartéis e a enfermaria militar.

Os defensores e a população passam fome e sede. Comem cavalos, cães e gatos. Os soldados do exército estão descalços. Os oficiais calçam tamancos de couro de cavalos.
O coronel Carlos Telles foi convidado a se render a fim de evitar mais derramamento de sangue. Respondeu que manteria a resistência até o último homem. Sabia o que aconteceu aos que se renderam em Rio Negro.

O jornalista Bierce é recebido por Joca Tavares num casarão, onde instalou seu quartel general em Bagé. Homem de meia altura, corpulento e vigoroso, apesar da idade avançada. Seu rosto é largo, arredondado, coberto por barba e bigode fartos, completamente brancos.  O pouco cabelo que lhe resta emenda-se ao bigode e à barba. Olhar tranquilo, embora distante. Aparenta menos idade do que tem. Fala pausado com os olhos fixos no interlocutor. Afirma-se que é o maior proprietário de terras nos dois lados da fronteira. Goza de poderes feudais, faz e executa a lei.
Diz não pretender restaurar a monarquia. Pelo contrário, declara-se republicano. O que deseja é a modificação da Constituição do Estado, feita por Júlio de Castilhos, pois estabelece uma ditadura que priva a oposição de qualquer chance.
Quando Bierce anuncia que quer informações sobre o massacre do Rio Negro, o general se inteiriça, anuvia-se-lhe o rosto, sorve o mate, medita e olha o "gringo" friamente.
- Ah, sim. Sei que o senhor é um jornalista muito enxerido e que anda por aí a fazer pergunta sobre isso. Eu posso lhe dar informações muito interessantes sobre histórias de crimes, degolas, prisões, estupros, roubos e depredações.
O general Tavares, então, começa a relatar coisas acontecidas após a retomada do poder por Júlio de Castilhos.
- Em quase todas as cidades e vilas do Estado, os asseclas de Castilhos meteram na cadeia centenas e centenas de oposicionistas. Também passaram a assassinar esses homens a tiros ou a degolas.
Depois de citar dois assassinatos em 1891, de um leiloeiro e um deputado liberal, Tavares falou de um familiar seu, Facundo Tavares. Ele tivera sua casa invadida no meio da noite pela polícia, que matou dois de seus filhos.
- No segundo semestre de 1892, mais de cem pessoas no interior foram assassinadas por delegados ou escoltas do governo. Na maior parte, degolados. Às vezes, castrados. Entre os mortos existiam políticos, era certo, mas predominavam simples estancieiros, comerciantes, pequenos lavradores, capatazes, peões, jornaleiros, crioulos e pardos.
O general mostrou uma lista em várias folhas de papel com os nomes das vítimas, dos executores e dos lugares onde ocorreram os crimes.
- Castilhos e seus comparsas do governo não puniram ninguém, nunca proferiram uma palavra de condenação a estes crimes. Castilhos, pelo contrário, deu ordem não escrita para que os oposicionistas fossem perseguidos. Em muitos municípios propriedades foram entregues ao saque, campos talados, casas incendiadas, estabelecimentos comerciais depredados. Roubaram das estâncias milhares de reses e cavalos. A título de multa, houve extorsões em dinheiro.

O general andou até o jornalista a passos largos. Parou e perguntou:

- O senhor não investigou isso? Por que não escreveu uma reportagem sobre tais crimes? O senhor se espanta agora com a possibilidade de alguém vingar as vítimas? Não entendo o senhor jornalista.
Bierce diz que o Tribune publicou matéria sobre essas violências, embora sem detalhes. E por fim retruca que há histórias de crimes cometidos pelos aliados do general.
- Legítima defesa. Pois não temos o poder.
- E a degola de Rio Negro? Um massacre como nunca se vira, nem mesmo nas inúmeras e cruéis revoluções platinas.
- Não tenho conhecimento oficial de semelhante massacre. Se houve, foi um ato de justiça retaliatória.

Um relato da degola

Nos arredores da parte urbana de Bagé, o jornalista norte-americano relata ter encontrado um índio à porta de um rancho coberto de capim. Ao que tudo indica é um oficial subalterno. E ele conta:
- A ordem do massacre partiu de um irmão do general Joca Tavares, que não fizera objeção. O doutor Silveira Martins foi informado e manifestou descontentamento, mas não tentou impedir.
A maioria dos prisioneiros marchava para o sacrifício impassivelmente, sem demonstrar medo ou emoção, mas alguns pediam compaixão e até choravam. A operação durou uma tarde e parte de uma noite. Por duas vezes, Adão Latorre jogou-se sobre um pelego para cochilar. Nada comeu. O lugar da degola se transformou num lodaçal sangrento.
Não sei quantos foram degolados, talvez uns 300. Há quem fale em 500. Acho que é exagero. Não sei o nome de nenhum. Mas quase todos eram caracos contratados pelo governo. Muitos corpos foram queimados e outros jogados na lagoa. Adão Latorre e seus homens guardaram como relíquias, conforme é costume dele, orelhas, narizes e dedos das vítimas.  
O homem que relatou esse fato estava fugindo de Latorre que prometera degolá-lo.


Por: Gladimir Aguzzi

 
Pesquisar