Paulo Coelho

domingo, 28 de dezembro de 2014 às 22:17

Os contos

No mosteiro de Sceta, um dia, o abade Lucas reuniu os frades para o sermão.

- Que vocês jamais sejam lembrados - disse ele.
- Mas, como? - respondeu um dos irmãos. 
- Será que o nosso exemplo não pode ajudar a quem precisa?
- No tempo em que todo mundo era justo, ninguém prestava atenção às pessoas exemplares - respondeu o abade.
- Todos davam o melhor de si, sem pretender, com isso, cumprir seu dever com o irmão. Amavam o seu próximo porque entendiam que isto era parte da vida, e não faziam nada de especial em respeitar uma lei da natureza.  Dividiam seus bens para não ter que acumular mais do que poderiam carregar, já que as viagens duravam a vida inteira.  Viviam juntos em liberdade, dando e recebendo, sem nada a cobrar ou culpar nos outros. Por isso seus feitos não foram contados, e não deixaram nenhuma história.
- Quem dera pudéssemos conseguir a mesma coisa no presente! Fazer do bem uma coisa tão comum, que não houvesse necessidade de exaltar aquele que o praticasse.

Reconstruindo o mundo
O pai estava tentando ler o jornal, mas o filho pequeno não parava de perturbá-lo. Já cansado com as interrupções, arrancou uma folha - que mostrava o mapa-múndi - cortou-a em vários pedaços, e entregou-a ao filho.
- Pronto, aí tem algo para você fazer. Eu acabo de lhe dar um mapa do mundo, e quero ver se você consegue montá-lo exatamente como é.
Voltou a ler o jornal, sabendo que aquilo ia manter o menino ocupado pelo resto do dia. Quinze minutos depois, porém, o garoto voltou com o mapa.
- Sua mãe andou lhe ensinando geografia? - perguntou o pai, aturdido.
- Nem sei o que é isso - respondeu o menino. - Acontece que do outro lado da folha havia o retrato de um homem. E uma vez que eu consegui reconstruir o homem, foi fácil reconstruir o mundo.

O fato
Zilu perguntou a Confúcio (filósofo chinês que viveu no século VI a.C):
- Posso saber o que o senhor pensa sobre a morte?
- Poder, você pode - respondeu Confúcio. - Mas se ainda não compreende a vida, por que deseja saber sobre a morte? Deixe para refletir sobre ela quando a vida já tiver acabado.

A reflexão
Loren Eisley (em "A Alma do Mundo", editado por P. Cosineau*2):
"Através de quantas dimensões deveremos passar, e por quantas formas de viver deveremos tentar nesta existência?" "Quantas estradas o homem tem obrigação de percorrer, até chegar ao ponto que escolheu?". 
"A viagem é difícil, longa - às vezes impossível". Mesmo assim, conheço poucas pessoas que se detiveram nestas dificuldades. Entramos no mundo sem saber direito o que aconteceu no passado, que consequências resultaram disto, e o que o futuro nos reserva. É como se nossos pais estivessem numa caravana - e de repente nós nascemos, no meio do percurso.
"Procuremos viajar o mais longe que pudermos". Mas, olhando a paisagem à nossa volta, saibamos que não será possível conhecer e aprender tudo.
"O que nos resta é lembrar tudo sobre a nossa viagem, a fim de que possamos contar histórias".
Aos nossos filhos e netos, relatemos as maravilhas que vimos, os perigos pelos quais passamos. Eles também nascerão e morrerão, contarão suas histórias aos descendentes, e a caravana ainda não terá chegado ao seu destino".


Por: Paulo Coelho

 
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