Paulo Coelho

domingo, 7 de setembro de 2014 às 21:13

O bosque de cedros

Em 1939, o diplomata japonês Chiune Sugihara, que ocupava um posto na Lituânia durante uma das épocas mais terríveis da humanidade, salvou milhares de judeus poloneses da ameaça nazista, concedendo-lhes vistos de saída.

Seu ato de heroísmo, desafiando seu próprio governo ao longo de muitos anos, foi uma obscura nota de rodapé na história da guerra. Até que, os sobreviventes salvos por Sugihara começaram a despertar do silêncio, e resolveram a contar sua história. Logo sua coragem e grandeza estavam sendo celebradas, chamando a atenção dos meios de comunicação, e inspirando alguns autores a escrever livros que descreviam como o "Schindler japonês".

Enquanto isso, o governo israelense vinha reunindo os nomes dos salvadores, para recompensá-los pelos seus esforços. Uma das formas que o estado judeu tentava reconhecer sua dívida para com esses heróis consistia em plantar árvores em sua homenagem. Quando a bravura de Sugihara foi revelada, as autoridades israelenses planejaram, como era de costume, plantar um bosque de cerejeiras - árvore tradicional do Japão - em sua memória.
De repente, numa decisão incomum, a ordem foi revogada. Eles decidiram que, em comparação com a bravura de Sugihara, cerejeiras era um símbolo insuficiente. Optaram, por um bosque de cedros, concluindo que o cedro era mais vigoroso e tinha conotações mais sagradas, por ter sido usado no Primeiro Templo.
Depois das árvores já plantadas, as autoridades descobriram que "Sugihara" em japonês significa... bosque de cedros.
Em Buda e na Virgem Maria
O monge vietnamita Thich Nhat Hanh é um dos mais respeitados mestres de budismo no Ocidente.
Numa viagem ao Sri lanka, encontrou seis crianças descalças. "Não eram crianças de favela, e sim do campo; olhando-as, vi que formavam parte da natureza ao redor".
Ele estava sozinho na praia, e todos correram em sua direção. Como Thich Nhat Hanh não falava o idioma, limitou-se a abraçá-las, e foi retribuído.
Em dado momento, porém, lembrou-se de uma antiga prece budista: "Refugio-me no Buda". Começou a cantá-la, e quatro das crianças fizeram o mesmo, batendo palmas, e reconhecendo um texto que talvez seus pais lhes tivesse ensinado. Thich Nhat Hanh então fez sinal às duas crianças que permaneciam caladas. Elas sorriram, juntaram as palmas das mãos, e disseram em páli: "Refugio-me na Virgem Maria".
O som da prece era o mesmo. Naquela praia, naquela tarde, Thich Nhat Hanh diz que encontrou uma harmonia e serenidade que raramente experimentara.


Embora Henri Matisse fosse 28 anos mais jovem que Auguste Renoir, os dois grandes pintores eram muito amigos e saíam sempre juntos. Quando Renoir ficou confinado em casa, na última década de sua vida, Matisse o visitava diariamente. Quase paralítico em função da artrite e apesar dos incômodos da doença, Renoir continuou a pintar. Um dia quando o contemplava pintando em seu ateliê, e gemendo de dor a cada pincelada, Matisse perguntou:
- Auguste, por que continua a pintar, com tanto sofrimento?
Renoir respondeu simplesmente:
- A dor passa, a beleza permanece.
Até os últimos dias, Renoir levou a tinta às telas. Um de seus quadros mais famosos, As banhistas, foi terminado dois dias antes de sua morte, 14 anos depois que ele foi atingido pela enfermidade.


Por: Paulo Coelho

 
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